Copa do Mundo Qatar 2022
No dia 18 de dezembro, terminou a XXII Copa do Mundo de Futebol no Qatar.
E acabou com o tricampeonato mundial da Argentina, que derrotou a França por 4x2 nos pênaltis, depois de empate por 3x3 nos 90 minutos e na prorrogação.
A Croácia terminou na terceira colocação e Marrocos, a grande surpresa da competição, terminou na quarta colocação.
Foi a primeira Copa disputada em um país árabe.
A competição foi cercada de polêmicas do início ao fim.
Denúncias de trabalho escravo e de desrespeito aos direitos humanos, chegaram a causar mal estar em alguns países e ameaças de boicote a competição. Mas no fim, todos os países participaram da Copa.
A cultura do Qatar é muito diferente da ocidental e isso causou alguma estranheza. As mulheres não têm os seus direitos de liberdade garantidos como têm aqui, a comunidade LGBTQIA+ é criminalizada, além de outras restrições.
A questão da bebida alcoólica também gerou polêmica. Até dois dias antes do começo do mundial, a bebida alcoólica estava liberada no entorno dos estádios. Na véspera do início da competição, o Comitê Organizador da Copa decidiu proibir bebidas alcoólicas. Só poderiam consumir bebidas em locais pré estabelecidos ou nas Fan Fests. Vale lembrar que um dos patrocinadores da FIFA e da Copa do Mundo é uma fábrica de cerveja.
Mas nem só de polêmicas foi a preparação para a competição. A preocupação com a sustentabilidade e a proteção ambiental foi muito grande. Criaram um sistema de refrigeração nos estádios através de energia solar, energia limpa como dizem.
Um dos 8 estádios que sediaram os jogos, o 974, era feito de containers. O nome do estádio, onde a seleção brasileira fez 2 dos 5 jogos do torneio, faz alusão ao número de containers utilizados para a sua construção. Quando os jogos acabaram, os containers foram retirados. 0% de impacto ambiental.
Além disso, o esquema de refrigeração nos estádios era de energia solar, totalmente limpa.
Foi ainda a Copa da Mobilidade. Diferente das duas últimas edições que foram disputadas no Brasil e na Rússia, onde as distâncias eram muito grandes por serem países de proporções continentais, no Qatar, a distância máxima entre os estádios era de no máximo uma hora, diferente do Qatar. O país árabe tem a extensão territorial do estado do Sergipe. Com isso, os torcedores tiveram a oportunidade de assistir mais de um jogo por dia.
Protestos
Durante a competição várias seleções fizeram protestos. A Inglaterra queria que o seu capitão Harry Kane, entrasse em campo com a faixa das cores do LGBTQIA+, em protesto contra a cultura do país sede que criminaliza a comunidade LGBT. A FIFA não permitiu e forneceu uma braçadeira com uma mensagem contra o racismo. Interessante é que depois desse episódio, na estreia dos ingleses na Copa, o English Team goleou o Irã por 6x2, com 5 gols de jogadores negros e um do atacante Grealish, que comemorou o seu gol fazendo uma dança que faz alusão a pacientes com paralisia cerebral.
Além disso, a seleção do Irã também se posicionou contra os protestos que estão ocorrendo no país árabe desde outubro, quando uma adolescente foi brutalmente assassinada na capital Irã. Os jogadores se recusaram a cantar o hino do país para mostrar que apoiavam os protestos no seu país.
Números
Foi uma Copa com alguns números expressivos: foi a Copa com o maior número de gols da história (172), ultrapassando as Copas da França em 1998 e do Brasil em 2014 com 171 gols.
Apesar do Qatar ter montado uma grande estrutura, o que tornou os estádios e a estadia no país caros, foi a 3° Copa com maior número de público, ficando atrás apenas dos Estados Unidos em 1994 e do Brasil em 2014.
Além disso, o francês M'Bappe terminou como artilheiro da competição com 8 gols e o argentino Messi foi o vice artilheiro com 7 (desde a Copa da Coreia e do Japão em 2002, quando Ronaldo foi artilheiro com 8 gols, que o artilheiro não fazia mais de 6 gols em uma edição do mundial).
Uma Copa Global
Além de ter sido uma Copa com muitas zebras, (vitórias da Arábia Saudita sobre a campeã Arábia Saudita, da Tunísia sobre a vice campeã França, da Austrália sobre a Dinamarca, do Japão sobre a Alemanha e a Espanha, de Marrocos sobre a Bélgica, de Camarões sobre o Brasil e da Coreia do Sul sobre Portugal), foi uma competição internacional. Talvez pela época em que foi disputada (normalmente as Copas são disputadas em junho e julho, no fim da temporada europeia e esta foi em novembro e dezembro no meio da temporada), ocorreram muitas lesões antes do início da competição. Só a França ficou sem oito jogadores. Craques como o senegalês Mane, os ingleses Reece James e Chilwell, o argentino Lo Celso, o alemão Havertz e o português Diogo Jota também ficaram de fora.
Isso talvez tenha ocorrido pelo acúmulo de jogos antes da competição e pelo pouco tempo de preparação das seleções (os jogadores se reuniram no dia 14 de novembro e a Copa começou em 20/11). Isso fez com que não houvesse tanto tempo para recuperação de lesões. Se nas outras edições eram 15 a 20 dias de preparação, desta vez foram no máximo 10.
Talvez por esse motivo, houve tanto equilíbrio e seleções de todos os continentes passaram para as oitavas de finais (a Austrália, embora dispute as eliminatórias asiáticas, está localizada na Oceania).
Com isso se classificaram para as oitavas de finais, 8 seleções europeias, 3 da Ásia (contando com a Austrália), 2 da CONMEBOL, 2 da ÁFRICA e uma da CONCACAF.
Foi ainda a primeira Copa em que uma seleção africana chegou às semifinais. A seleção de Marrocos, após derrotar a Bélgica e terminar em primeiro lugar no Grupo F, eliminou a Espanha nas oitavas e Portugal nas quartas, conseguindo uma inédita quarta colocação, depois de ser eliminada pela França por 2x0 nas semifinais e perder a disputa pelo terceiro lugar para a Croácia por 2x1.
A competição no Qatar mostrou que a vantagem das seleções europeias não é tão grande. Os clubes da Europa são os melhores, até pelo poderio financeiro, mas contam com jogadores do mundo inteiro e, com o avanço tecnológico, todos têm acesso às informações de todas as seleções. Isso acaba equilibrando as coisas.
A Copa dos treinadores
A competição do Qatar foi também Copa dos treinadores.
Ótimos trabalhos de alguns comandantes, cada um com características diferentes.
Lionel Scaloni
O treinador argentino mostrou ser um grande estudioso da sua equipe e dos adversários. Mudou o esquema tático da sua equipe várias vezes durante a Copa. Na estreia perdeu para a Arábia Saudita com um esquema ultra ofensivo. Depois trocou peças e o esquema tático, de acordo com o adversário. Três zagueiros, como na partida das quartas de finais, linha de quatro defensores, dois ou três atacantes. Tudo isso para aproveitar da melhor forma a genialidade do seu camisa 10, o craque Lionel Messi. Essa estratégia foi tão perfeita que a Argentina foi campeã e Messi eleito o melhor da competição no Oriente Médio.
Didier Deschamps
Já a vice campeã França teve no comando o mesmo Didier Deschamps, campeão do mundo com a seleção francesa na Copa da Rússia de 2018. A França precisou superar um total de 8 desfalques. Jogadores como os zagueiros Kimpembe e Lucas Hernandez, Kante e Pogba e o atacante Benzema, eleito o melhor jogador da temporada pela France Football em outubro, ficaram de fora por lesão.
A maioria das seleções sentiria o baque. A França não. Mesmo com tantas baixas, demonstrou desde a primeira partida uma equipe muito equilibrada e entrosada. Contando com o brilho de M'Bappe, artilheiro da Copa com 8 gols, fez uma ótima campanha e se adaptou a todas as dificuldades impostas pelos seus adversários.
Na final de domingo, Deschamps teve a coragem de trocar dois jogadores ainda no primeiro tempo. Era o momento de mudar, a Argentina estava dominando a partida e vencendo por 2x0. As alterações surtiram efeito e a seleção francesa empatou a partida, o que mostra a competência do treinador francês que fez as mudanças no momento preciso.
Walid Regragui
O treinador marroquino, com apenas três meses na seleção, levou Marrocos a se tornar a primeira seleção africana e árabe a chegar a uma semifinal de Copa. Montou uma estratégia de se defender em bloco com todos os jogadores, anulando as principais competências do adversário e explorar os contra ataques.
Um exemplo foi a partida contra a Espanha: sabendo que a Fúria não tem um artilheiro e nem jogadores de profundidade, que explorem jogadas pelas pontas, Walid criou uma tática para fechar o meio, por onde o adversário faz triangulações e cria a maioria das jogadas. Deu certo e a seleção africana levou a partida para os pênaltis e conseguiu a classificação nos pênaltis. Na partida, a seleção africana teve menos de 30% da posse de bola e trocou trezentos passes contra mais de mil da Fúria.
Contra Portugal nas quartas, marcou 1x0 no primeiro tempo e segurou a pressão da seleção portuguesa no segundo tempo.
O trabalho de Regragui transcendeu o campo. Ex jogador, sempre se ressentiu por sua mãe nunca ter assistido a uma partida sua. Quando chegou ao comando da seleção, solicitou a federação do país que levasse as mães dos jogadores ao Qatar para assistir aos jogos dos filhos no mundial. A questão humana ou sócioafetiva que se fala tanto atualmente, foi levada em consideração.
Tite
O treinador da seleção brasileira chegou a sua segunda Copa do Mundo novamente como favorito. Tinha um ótimo time com valores como Lucas Paqueta, Raphinha, Richarlison, Vinícius Júnior, liderados pelo craque Neymar.
Mas problemas de lesão com Danilo, Alex Sandro, Alex Telles, Gabriel Jesus e Neymar atrapalharam os planos.
O treinador gaúcho montou um esquema ultra ofensivo com Casemiro, Lucas Paqueta e Neymar no meio campo e Raphinha, Richarlison e Vinícius Júnior na frente.
O treinador abdicou de um homem de meio campo para aproveitar o talento de Vinícius Júnior, indo na contramão das melhores seleções da Copa que tinham meio campos fortes e combativos. A Croácia, algoz da seleção brasileira nas quartas de finais, tinha um meio campo muito habilidoso com Brozovic, Kovacic e Modric, tendo Perisic reforçando o meio campo.
Como Tite não tinha laterais muito ofensivos, poderia ter optado por um esquema com três zagueiros (Militao, Thiago Silva e Marquinhos) e os três no meio (Casemiro, Fred ou Bruno Guimarães e Lucas Paqueta, dando liberdade aos quatro atacantes). Raphinha, Richarlison e Vinícius Júnior poderiam fechar até o meio campo, dando liberdade ao craque Neymar.
Mas esse esquema teria de ter sido testado e esse é um dos defeitos do comandante brasileiro. Não treinou variações táticas.
Tática
As principais seleções apostaram no jogo posicional. Jogo apoiado, com pouco espaço entre as linhas e profundidade pelas pontas. Os zagueiros precisam ter um bom passe na saída de três, que se tornou outra tendência neste mundial. Os meio campistas precisam ser capazes de construir e destruir com a mesma facilidade. Poucas vezes vimos ligações diretas da defesa para o ataque. Esse é um conceito do futebol moderno que ficou claro na competição do Qatar.
Destaques individuais da Copa
Foi uma competição com alguns destaques individuais. Os maiores deles foram o argentino Messi, campeão e melhor jogador e M'Bappe, segundo melhor jogador e artilheiro da competição. O volante argentino Enzo Perez foi a revelação, o argentino Emiliano Martinez o melhor goleiro e o segundo gol do brasileiro Richarlison contra a Sérvia foi escolhido o mais bonito da Copa.
Com os três gols na final, M'Bappe chegou a 12 gols em Copas com apenas 23 anos e igualou-se ao brasileiro Vavá como o único jogador a marcar gols em duas finais seguidas. O brasileiro Pelé, o alemão Paul Breitner e o francês Zidane também marcaram em duas
finais, mas não foram finais consecutivas. Além disso igualou-se ao inglês Geoff Hurst como o único jogador a marcar 3 gols em uma final de Copa.
Já o argentino Messi chegou a 13 gols em Copas do Mundo, tornando-se o argentino com mais gols em mundiais. É o único jogador a marcar em todos os jogos eliminatórios de uma Copa (oitava, quarta de final, semifinal e final), desde a Copa do Mundo de 1986.
Escalei a minha seleção da Copa com Emiliano Martinez, o lateral direito Hakimi do Marrocos, Thiago Silva do Brasil, Gvardiol da Croácia e Theo Hernandez da França; Amrabat do Marrocos, Enzo Perez da Argentina, Luka Modric da Croácia e Griezzmann da França no meio campo e Messi e M'Bappe no ataque.
Uma equipe reserva teria o goleiro Bono do Marrocos, Upamecano da França, Koulibally do Senegal e Otamendi da Argentina; Casemiro do Brasil, Ounahi de Marrocos, Bellingham da Inglaterra e Bruno Fernandes de Portugal; Ziyech de Marrocos, Harry Kane da Inglaterra e Gakpo da Holanda. Destaco ainda o goleiro Livakovic da Croácia, o ala Dumfries da Holanda, os volantes Tchouameni da França e De Paul da Argentina e os atacantes Saka da Inglaterra, Julian Alvarez da Argentina e Boufal do Marrocos, além dos atacantes brasileiros Neymar e Vinícius Júnior.
A competição no Qatar foi a última com 32 seleções. Foi uma boa competição, em que as duas melhores seleções fizeram uma ótima partida final.
Em 2026 nos Estados Unidos, Canadá e México serão 48 seleções.
Vamos ver o que como será a competição com um aumento tão grande no número de seleções.
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