Copa do Mundo do Chile 1962

 Porque no tenemos nada, lo haremos todo"


Em junho de 1956, no Congresso da FIFA realizado em Lisboa, o Chile acabou ganhando o direito de organizar a VII Copa do Mundo em 1962. Depois das Copas de 1954 e 1958 serem realizadas no continente europeu, a Copa voltava a América do Sul.


Os chilenos começaram a montar a infraestrutura necessária para a competição, liderados pelo brasileiro naturalizado chileno Carlos Dittborn, presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol. O Estádio Nacional teve sua capacidade de 45 mil espectadores aumentada para 70 mil, e um novo estádio foi construído em Viña del Mar, o Sausalito (onde a seleção brasileira jogou 4 das 6 partidas da competição).


Em Maio de 1960, quando os preparativos estavam a pleno vapor, o país foi pego de surpresa pelo terremoto em Valdivia, que registrou 9,5 pontos na escala Richter, o maior registrado na história mundial recente. O tremor deixou cinco mil mortos e 25% da população desabrigada, além de lançar dúvidas sobre a capacidade do Chile de sediar a Copa depois da tragédia.


Em face desses problemas, Dittborn pronunciou a frase que acabaria se tornando o slogan não oficial da competição: "Porque nada tenenos, lo haremos todo" (porque nada temos, faremos tudo). A FIFA lhe deu um voto de confiança e as obras foram terminadas em tempo recorde.


Dittborn não viveu para ver o resultado de seus esforços. Sofreria um ataque cardíaco em 28 de abril de 1962, um mês antes da Copa. O estádio de Arica foi batizado em sua homenagem.



Seleção Brasileira 


Quatro anos depois do título na Suécia, era a vez da Copa do Mundo do Chile.


A Copa do bicampeonato mundial da seleção brasileira, conquista que completou 60 anos no dia 17 de junho deste ano. Foi a Copa de Garrincha. Sem o anjo das pernas tortas, a seleção dificilmente ganharia o título.


Ele fez de tudo no Chile. Deu passes, marcou gols de cabeça, de perna esquerda, de fora da área, foi expulso… Não à toa foi escolhido o melhor jogador da Copa.


A seleção brasileira era quase a mesma, apenas com a substituição de Orlando Peçanha, que tinha ido jogar fora do país, no Boca Juniors da Argentina, por Zózimo, que atuava no Bangu e do capitão Bellini por Mauro, por questões técnicas.


Os outros 9 jogadores eram os mesmos da final contra a Suécia, 4 anos antes: Gilmar, Djalma Santos, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Pelé, Vavá e Zagallo.


Era uma geração 4 anos mais velha e a capacidade física de alguns jogadores não era a mesma. Zózimo, Zito e Garrinha tinham 29 anos, Vavá, 28 e o mais novo continuava sendo Pelé com 21 anos. Os outros 6 jogadores tinham mais de 30 anos: Zagallo tinha 30 anos, Gilmar e Mauro 32, Djalma Santos 33, Didi 34 e Nilton Santos já estava com 37 anos.


Um dado curioso da equipe naquela Copa: apesar de ser uma seleção já envelhecida para a época (o elenco completo tinha uma média de 27 anos), somente um reserva foi utilizado, o atacante Amarildo do Botafogo, que entrou no lugar de Pelé, que se contundiu na segunda partida contra a Tchecoslováquia e não participou mais da competição. Na Copa de 1958, 5 reservas entraram em campo.



Preparação 


O planejamento para aquela Copa foi bastante parecido com o do título na Suécia. E a comissão técnica era praticamente a mesma. Somente o treinador Vicente Feola, que sofria de nefrite aguda e problemas cardíacos, e o psicólogo João Carvalhaes foram substituídos.


Como os campeões do mundial anterior e o país sede não disputavam as Eliminatórias, a seleção brasileira jogou uma série de amistosos de preparação.



Aymore Moreira 


O baiano Aymore Moreira foi escolhido como o substituto de Vicente Feola. Ele estava dirigindo o São Paulo e já tinha dirigido alguns times importantes, como o Corinthians, o Palmeiras e o São Paulo. Diferente de Feola, que trocou jogadores antes de todas as partidas, Aymore Moreira achava que a seleção brasileira já tinha uma equipe consolidada e só trocou Pelé, machucado, por Amarildo do Botafogo. Dirigiu a seleção em 61 partidas, com 37 vitórias, 9 empates e 15 derrotas e teve a oportunidade de treinar três gerações de craques: a geração de Zizinho, a de Didi e a de Tostão e Rivellino.



Mauro, o capitão 


Depois de ter sido reserva nas duas Copas anteriores, o zagueiro Mauro virou titular e capitão da seleção brasileira no lugar de Bellini.


Mauro, que jogava no Santos de Pelé, era um homem de grande personalidade. Um episódio pouco antes da final mostra isso.

Segundo o site da CBF, conta-se uma história que pode ser lenda, brincadeira ou invenção. Li essa história também no livro O Jogo Bruto das Copas do Mundo.


Mauro, que havia sido reserva em 1954 na Suíça  e no título de 1958, passou a titular em toda a preparação para a Copa do Chile. Disputou amistosos, como capitão - barrando Bellini - até que, dias antes da estreia na Copa do Chile, o então técnico Aymoré Moreira o chamou para uma conversa.

- Mauro, você tem treinado e jogado muito bem nos amistosos. Mas o titular será o Bellini, já escolhi.


O zagueiro  não aceitou a explicação. Pelo contrário.

- Senhor Aymoré, isso não está certo. Esperei quatro anos calado na reserva, mas agora não dá mais. Quem vai jogar sou eu. Sou o titular, disse ameaçando deixar a delegação.


Aymoré não perdeu a viagem. Respondeu, de primeira. 

- Isso mesmo, meu capitão. Só queria saber a sua reação, se você estava preparado mesmo. Vai jogar! 


Verdade ou não, o episódio mostra bem a personalidade do nosso capitão.



Convocação 


Assim como na Copa anterior, somente jogadores do Rio e de São Paulo foram convocados. Na verdade Minas Gerais e o Rio Grande do Sul só começaram a aparecer no cenário nacional, com o título do Cruzeiro sobre o Santos na Taça Brasil em 1966, a inauguração do Mineirão em 1969 e o tricampeonato do Internacional na década de 1970.


Foram 8 mudanças em relação a seleção que ganhou o título na Suécia. Os laterais De Sordi e Oreco deram lugar a Jair Marinho e Altair. O zagueiro Orlando Peçanha foi substituído por Jurandir. Os meio campistas Dino Sani e Moacir saíram para a entrada de Zequinha e Mengalvio e os atacantes Joel, Dida e Mazzola deram lugar a Jair da Costa, Amarildo e Coutinho. Além dos 11 titulares, somente Castilho, Bellini e Pepe continuavam no grupo.



Copa do Mundo


Chegava o momento de defender o título conquistado 4 anos antes. O time brasileiro seguia como favorito e segundo Aymoré Moreira, o time era mais entrosado e não devia ser alterado. 


Além da seleção brasileira, a União Soviética, atual campeã europeia,Tchecoslováquia, Iugoslávia, Inglaterra, Itália e Espanha, que venceria a Eurocopa 2 anos depois e tinha alguns ótimos jogadores como Gento e os naturalizados Puskas (estrela da seleção húngara na Copa do Mundo de 1954) e o argentino Di Stefano, a Argentina e o Chile, com o apoio dos seus torcedores, chegavam com chances de título.


A seleção brasileira estava em um grupo complicado com México, Tchecoslováquia e Espanha. 


Para a estreia, a seleção jogou com Gilmar, Djalma Santos, Mauro, Zózimo e Nilton Santos; Zito, Didi e Zagallo; Garrincha, Pelé e Vavá. Zagallo, o Formiguinha, agora jogava como meia esquerda caindo pela ponta.


A seleção brasileira estreou com uma vitória por 2x0.


Não foi uma partida fácil. A seleção mexicana assustou em alguns momentos no primeiro tempo. Na etapa final, Zagallo de peixinho e Pelé em bonita jogada individual definiram o placar.


Na segunda rodada contra a Tchecoslováquia, o time foi o mesmo. Desta vez a partida terminou 0x0 e o mais grave: Pelé se machucou durante a partida e, devido a gravidade da lesão, não participou mais da competição.


O escolhido para substituir Pelé foi o atacante Amarildo, de 21 anos. Com a mesma idade de Pelé, O Possesso, como foi apelidado pelo cronista e comentarista Nelson Rodrigues, Amarildo sabia que dificilmente entraria em campo, uma vez que Pelé já era o melhor do mundo. A chance surgiu e com o apoio de seus companheiros do Botafogo, Nilton Santos, Didi e Garrincha e de todo o grupo, Amarildo não decepcionou.


A última partida da 1° fase foi contra a Espanha e a Seleção Brasileira não poderia perder.



Brasil 2x1 Espanha


As equipes jogariam sem as suas principais estrelas: o Brasil não tinha Pelé, machucado na partida anterior e a Espanha não tinha Di Stefano, considerado o melhor jogador europeu na época.


Havia um certo clima de revanchismo entre as duas seleções. O motivo foi a fracassada temporada de Didi no Real Madrid. Muitos acusavam o craque Di Stefano, craque argentino naturalizado espanhol, como o responsável pelo boicote ao meia brasileiro. 

Esse clima de tensão acabou deixando a seleção brasileira nervosa. A Espanha fez 1x0 no primeiro tempo com Adelardo Rodriguez e quase fez o segundo na etapa final, o que, praticamente, acabaria com o sonho do bicampeonato mundial.


O lance ocorreu aos 11 minutos da etapa final. Nilton Santos interceptou a subida ao ataque de Collar dentro da área. O lateral esquerdo, malandramente, deu dois passos para fora da área e o juiz marcou falta ao invés de pênalti. Na cobrança Puskas cruzou e Joaquim Peiro marcou de bicicleta, mas o juiz anulou o gol, marcando jogo perigoso. O lance tirou a seleção espanhola do prumo.


Pouco depois, o estreante Amarildo empatou após passe de Zagallo e no fim da partida virou o jogo depois de jogada individual de Garrincha.


Com a vitória, a seleção brasileira se classificou em primeiro no seu grupo, tendo a Tchecoslováquia na segunda colocação. Brasileiros e tchecos se reencontrariam na final daquela Copa.


O adversário nas quartas de finais seria a Inglaterra.


Os ingleses tinham uma boa seleção e mostraram isso. Marcavam muito bem, além de terem boa técnica. Mas Garrincha começou a fazer a diferença naquela Copa. 

Primeiro fez 1x0 para a seleção brasileira de cabeça, algo raro na carreira do craque. Pouco depois, Hitchens empatou para os ingleses. No segundo tempo, Vavá e, novamente Mane marcaram para a seleção brasileira. 


Nas semifinais o adversário seria o Chile, país anfitrião daquele mundial, que superou a boa seleção da União Soviética por 2x1 nas quartas de finais.



Brasil 4x2 Chile


A partida da semifinal estava marcada para o Sausalito, em Vina del Mar, onde a seleção brasileira tinha jogado os 4 primeiros jogos. Mas a organização da Copa decidiu mudar o duelo para Santiago, onde a seleção local teria um apoio maior.


Quase 70 mil torcedores estiveram no estádio para incentivar a Seleção do Chile. Mas viram outra ótima atuação de Garrincha. O Anjo das Pernas Tortas fez 1x0 para o Brasil de cabeça e marcou o 2° de perna esquerda, chutando de fora da área  No fim do 1° tempo, Toro diminuiu cobrando falta. 


Logo no começo da etapa final, Vavá aumentou o placar para 3x1. Mais tarde Sanchez de pênalti diminuiu a vantagem brasileira e Vavá marcou, definindo a classificação da seleção brasileira para a segunda final de Copa do Mundo consecutiva. 


Infelizmente Garrincha foi expulso e não poderia jogar a final. O craque foi caçado o jogo inteiro e levou algumas faltas duras dos chilenos. No fim da partida, deu um chute no traseiro de um adversário em tom de brincadeira e acabou expulso por isso.


Ocorreu que, no dia do julgamento de Garrincha, o auxiliar da semifinal, que tinha avisado o juiz da agressão, Esteban Marino, tinha desaparecido. Sem a presença de Marino e como a agressão de Mane não constava na súmula, o craque brasileiro foi absolvido. Até hoje há quem diga que o Brasil foi favorecido na Copa do Mundo de 1962. Afinal, 60 anos depois, todos sabem que Garrincha, embora expulso contra o Chile na partida anterior, jogou a final. 


O árbitro auxiliar Esteban Marino teria “fugido” do Chile para não precisar julgar a expulsão de Garrincha e isso teria sido obra de um suborno brasileiro, como se suspeita até hoje.


Com Garrincha em campo, a seleção brasileira foi para a final contra a mesma Tchecoslováquia da primeira fase. Aos 15 minutos, Masopust marcou para os tchecos, mas Amarildo empatou logo depois, chutando quase sem ângulo.


No segundo tempo, Amarildo deu o passe para Zito virar o placar e Vavá deu números finais a partida depois de falha do goleiro Schrojff, que soltou a bola que estava nas suas mãos.


A seleção brasileira era bi campeã mundial com justiça. Garrincha foi o melhor jogador da Copa, seguido do tcheco Josef Masopust e do chileno Leonel Sanchez. Ele e Vavá foram os artilheiros da competição junto com outros quatro jogadores, todos com 4 gols. Além de Garrincha, Djalma Santos, Zito, Zagallo e Vavá fizeram parte da seleção da competição.


Garrincha teve um papel decisivo, principalmente após a lesão de Pelé. Marcou 2 gols contra a Inglaterra e outros 2 contra o Chile e sempre levou muito perigo às defesas adversárias.


O Brasil se consolidava como uma potência do futebol e, com uma seleção envelhecida, mas que jogava de forma muito compacta e tinha em Garrincha o seu maior destaque, chegava ao bicampeonato mundial no Chile. 


O futebol não foi tão brilhante do que o do título de 1958, mas foi superior a todas as outras.


Fontes de pesquisa


https://pt.wikipedia.org/wiki/Copa_do_Mundo_FIFA_de_1962


https://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil_na_Copa_do_Mundo_FIFA_de_1962


https://elencos.com.br/elenco-da-selecao-brasileira-de-62.html


https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Brasil_2%E2%80%931_Espanha_(1962)


https://educacao.uol.com.br/biografias/aymore-moreira.htm


http://jornalismojunior.com.br/copa-do-mundo-do-chile-em-1962-ha-60-anos-o-talento-de-garrincha-levou-o-brasil-a-gloria-maxima-pela-segunda-vez/

Imagem Cooper Livros Leilões 

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