As Copas que eu vi- Alemanha 2006
Com 33 anos, confiava muito naquela seleção que tinha alguns jogadores fantásticos.
Também foi a Copa em que aprendi o quanto os portugueses amam futebol e a sua seleção.
A seleção brasileira tinha muitas chances de ganhar o hexa, mas teve uma Copa das Confederações no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma Copa das Confederações...
Pós Copa de 2002
O escolhido para ser o novo treinador da Seleção Brasileira foi novamente Carlos Alberto Parreira. O mesmo treinador do Tetra de 94, ainda com Zagallo como auxiliar técnico.
Como a seleção não tinha compromissos em 2002, Parreira assumiu em 2003.
No ano do Penta, Parreira fez um bom trabalho pelo Corinthians, sendo campeão do Torneio Rio-São Paulo e da Copa do Brasil e perdendo a final do Campeonato Brasileiro para o Santos, que tinha um time de jovens muito talentosos como Elano, Diego e Robinho.
Em 2003, a primeira competição da "nova" seleção brasileira foi a Copa das Confederações na França em junho. Parreira chamou alguns de seus comandados do Corinthians no ano anterior como Fábio Luciano, Kleber e Gil, além de outros jogadores de qualidade questionável como o volante Dudu do Vitória da Bahia e o atacante Ilan do Athletico Paranaense.
A campanha da atual campeã mundial foi decepcionante: derrota por 1x0 para Camarões na estreia, vitória pelo mesmo placar sobre os Estados Unidos e empate com a Turquia em 2x2 e a seleção brasileira estava eliminada na primeira fase.
Em setembro de 2003 iam começar as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006 na Alemanha.
Eliminatórias
Desde a Copa do Mundo da França em 1998, a campeã mundial tinha de disputar as Eliminatórias para a Copa seguinte, portanto a seleção brasileira precisava se classificar para o Mundial da Alemanha.
Ao contrário das duas Eliminatórias anteriores, estas foram bem mais tranquilas, com 9 vitórias, 7 empates e somente 2 derrotas para o Equador em Quito (1x0) e a Argentina em Buenos Aires (3x1). Terminou em primeiro lugar com os mesmos 34 pontos da Argentina e garantiu a vaga na Copa com 4 rodadas de antecedência.
Ao contrário dos ciclos anteriores, o treinador da seleção principal não iria dirigir a seleção olímpica. Em janeiro de 2004, Ricardo Gomes tentou classificar a seleção brasileira para as Olimpíadas. Não conseguiu. A seleção foi eliminada para o Paraguai no Pré Olímpico e não foi para os Jogos Olímpicos de Atenas.
Em julho, o compromisso era a Copa América no Peru. Como a seleção estava disputando as Eliminatórias para a Copa do Mundo, Parreira optou por levar uma seleção alternativa e descansar os titulares. Do time titular, apenas Júlio César, Luisão e Adriano estariam na Copa da Alemanha dois anos depois.
Na primeira fase, a seleção brasileira passou por Chile e Costa Rica e perdeu para o Paraguai na última rodada da primeira fase, se classificando em 2° do seu grupo. Nas quartas de final, goleada sobre o México por 4x0 e nas semifinais, empate em 1x1 contra o Uruguai e vitória por 5x3 nos pênaltis.
A final seria contra a Argentina. Os hermanos estavam com o time completo. O primeiro tempo terminou 1x1. O jogo seguiu empatado até os 42 minutos, quando Delgado marcou o 2° gol para a Argentina. Parecia que a seleção brasileira ficaria com o vice... Parecia. No último lance da partida, Adriano recebe a bola cercado de adversários, domina e marca um golaço. Empate em 2x2 e o título seria decidido nos pênaltis. Deu Brasil, por 4x2. A seleção brasileira ganhava mais uma Copa América e essa teve um sabor especial, não apenas por ter sido com um time alternativo como por ter sido contra a Argentina, a maior rival, com o gol de empate no último lance da partida.
O time tinha Gustavo Nery, Renato, Edu, Alex, Diego... Não disputaram Copas do Mundo, mas ganharam um título pela Seleção Brasileira.
Nas últimas partidas pelas Eliminatórias em 2004, duas vitórias sobre a Bolívia e a Venezuela, um empate contra a Colômbia e a primeira das duas derrotas da seleção brasileira naquelas Eliminatórias para o Equador por 1x0 fora de casa.
Em 2005, após 4 partidas pelas Eliminatórias (2 vitórias sobre o Peru e o Paraguai, um empate com o Uruguai e uma derrota para a Argentina por 3x1 em Buenos Aires), era o momento de disputar a Copa das Confederações. A chance de jogar contra a Alemanha e a Grécia, campeã da Eurocopa no ano anterior.
Como estava no meio das Eliminatórias, Parreira decidiu não convocar Cafu, Roberto Carlos e Ronaldo.
A primeira fase foi mais difícil do que se esperava: depois de uma vitória tranquila na estreia sobre a Grécia por 3x0, derrota para o México por 1x0 e empate difícil contra a seleção japonesa por 2x2. O Brasil se classificava para as semifinais em 2° lugar e iria enfrentar a favorita Alemanha nas semifinais.
Em um jogo dificílimo, vitória por 3x2 com 2 gols de Adriano e um de Ronaldinho Gaúcho de pênalti.
Na final, o adversário era a Argentina, que tinha vencido a seleção brasileira pelas Eliminatórias menos de um mês antes. Desta vez foi diferente. Um show da seleção brasileira e goleada por 4x1, com dois gols de Adriano, um de Kaká e um de Ronaldinho Gaúcho. A seleção brasileira era campeã da Copa das Confederações e surgia como principal favorita ao título da Copa do Mundo no ano seguinte.
Mas na minha opinião, essa conquista não foi boa para a seleção brasileira. Acredito que a equipe foi colocada em um nível tão superior as outras, que "parecia" certo o titulo mundial. A conquista mascarou alguns defeitos daquele time que era brilhante se tivesse Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Robinho, Adriano e Ronaldo Fenômeno em forma. Mas o problema é que alguns deles chegaram a Copa mal fisicamente e Parreira colocou de volta no time titular Cafu, Roberto Carlos e Ronaldo, que estava bem acima do peso e não conseguiu recuperar a sua melhor forma.
Enfim, ao invés de evoluir depois da Copa das Confederações, o time caiu muito de produção.
Outra questão: o time tinha algumas estrelas consagradas como Cafu, Roberto Carlos, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo, que estavam muito mais interessados em recordes pessoais do que vencer uma Copa do Mundo. Até Adriano, que tinha somente 25 anos, parecia cansado do estrelato.
Nas últimas partidas das Eliminatórias, duas goleadas sobre o Chile e a Venezuela em casa e um empate contra a Bolívia fora de casa.
No sorteio da fase de grupos da Copa em dezembro, ficou definido que a seleção enfrentaria a Croácia, a Austrália e o Japão na primeira fase. Grupo tranquilo para a seleção que era considerada a maior favorita ao título mundial.
Chegava o ano de 2006. E com ele, a constatação de que algo não ia bem com os principais craques da seleção brasileira. Na época, eu assistia muito os programas da ESPN BRASIL e alguns dos maiores comentaristas do Brasil como o José Trajano, Juca Kfouri e o Paulo Vinicius Coelho alertavam sobre isso.
Em março a seleção brasileira fez um amistoso contra a seleção da Rússia. Apesar do frio de -17° Celsius, a equipe não foi bem. Vitória magra por 1x0 e o treinador Parreira começava a dar sinais de preocupação com a má fase dos seus maiores craques.
No mês seguinte a convocação para a Copa: desta vez sem surpresas ou polêmicas, Parreira convocou os melhores.
Os brasileiros acreditavam muito naquela seleção e tinham bons motivos para acreditar. Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo eram as estrelas de alguns dos maiores times do mundo. Dida e Cafu tinham carreira consolidada no Milan e Lúcio, Juan, Roberto Carlos, Emerson e Zé Roberto jogavam na Europa há anos. Um time de estrelas internacionais, que me lembrava os Harlem Globetrotters, tamanha era a habilidade dos jogadores.
Para quem não conhece os Globetrotters são uma equipe de basquete norte americana que viaja o mundo todo fazendo apresentações performáticas. São famosos por sua habilidade. São considerados a equipe de basquete mais famosa do mundo por fazerem de suas apresentações um espetáculo de entretenimento e habilidade.
A primeira parte da preparação para a Copa do Mundo foi em Weggis na Suíça. Dois amistosos e duas goleadas sobre um combinado de Lucerna (8x0) e a Nova Zelândia (4x0) fizeram aumentar o clima de já ganhou. Treinos abertos ao público, torcedores invadindo o gramado, no último dia uma mulher agarrou Ronaldinho Gaúcho e rolou com ele pelo gramado. Parecia tudo menos um treino de um time profissional de futebol para uma Copa do Mundo.
Outra crítica que eu faço é a forma como a preparação para a Copa do Mundo foi feita. Weggis não era uma cidade turística, mas foi palco de um circo naqueles 15 dias de festa.
Teve até Carnaval fora de época comandado por Neguinho da Beija Flor.
Um marciano que visse aquele time, poderia pensar que aquele time já tinha sido campeão do mundo. Faltou foco.
Esse ambiente de festa não foi bom para a Seleção Brasileira
Apesar disso, Parreira definiu um time base para a Copa: Dida, Cafu, Lúcio, Juan e Roberto Carlos; Emerson, Zé Roberto, Kaká e Ronaldinho Gaúcho; Adriano e Ronaldo.
Copa do Mundo
A estreia da seleção brasileira foi contra a Croácia. Jogo complicado, como costumam ser as estreias na Copa. Brasil 1x0, gol de Kaká com um belo chute de fora da área.
A segunda partida da primeira fase seria contra a Austrália. Aparentemente um adversário mais fácil... Aparentemente. Foi uma partida muito difícil. Ronaldo claramente fora de forma não conseguia dar sequência às jogadas e os australianos tiveram algumas chances no primeiro tempo.
No início do segundo tempo, Adriano abriu o placar para a seleção brasileira. Mas aí é que os Socceros, como a seleção australiana é conhecida, se tornaram mais perigosos, dando muito trabalho ao goleiro Dida. Vitória difícil, com várias chances perdidas pelas duas seleções. Aos 45 minutos do segundo tempo, o atacante Fred, que entrou no segundo tempo, marcou o 2° gol, após passe de Robinho que tinha entrado no lugar de Ronaldo e fez boa partida.
Com a vitória sobre a Austrália, a seleção brasileira iria jogar contra o Japão já classificada para as oitavas de finais. Com isso, Parreira decidiu poupar Cafu, Roberto Carlos, Emerson, Zé Roberto (que entrou no segundo tempo) e Adriano.
Ronaldo Fenômeno jogou e marcou os seus dois primeiros gols na Copa. O Fenômeno começou a Copa do Mundo com 12 gols em mundiais (4 na França em 1998 e 8 no Japão e na Coreia do Sul em 2002) e precisava de mais dois para se igualar ao alemão Gerd Muller e 3 para se tornar o maior artilheiro da história das Copas do Mundo. Contra o Japão ele se igualou ao alemão.
O primeiro tempo da partida não foi fácil. Muitas chances desperdiçadas, até valer a velha máxima do futebol de que quem não faz leva. Tamada fez 1x0 para o Japão aos 33 minutos. Aos 46 minutos Ronaldo empatou a partida de cabeça. No segundo tempo, Juninho Pernambucano, Gilberto e novamente Ronaldo completaram o marcador. A seleção brasileira terminava a primeira fase com 100% de aproveitamento e classificou-se para as oitavas, em primeiro lugar, com a Austrália em 2°.
Alemanha no Grupo A, Portugal no D e Espanha no H também venceram as suas três primeiras partidas, deixando respectivamente Equador, México e Ucrânia na 2° colocação.
No grupo B, Inglaterra e Suécia se classificaram, Argentina e Holanda garantiram as vagas no C, Itália e Gana foram para as oitavas de finais no Grupo E e a Suíça e a França também continuavam na Copa pelo G.
A partida das oitavas seria contra a seleção de Gana. A vitória de 3x0 não mostrou o que foi a partida. A seleção africana deu trabalho e teve várias chances de marcar.
Logo aos 5 minutos, Ronaldo Fenômeno fez 1x0. Era o 15° gol do brasileiro em Copas do Mundo e ele superava o alemão Gerd Muller e se tornava o jogador com mais gols em Copas, com 15 gols (seria ultrapassado por Klose na Copa do Mundo do Brasil em 2014). No final do primeiro tempo, Adriano fez 2x0 e Zé Roberto completou o placar na etapa final.
Nas outras partidas das oitavas de finais, a Alemanha eliminou a Suécia, a Argentina derrotou o México, a Inglaterra superou o Equador e Portugal mandou a Holanda de volta para casa, naquela que é considerada uma das partidas mais violentas da história das Copas. A Itália despachou a Austrália e a Ucrânia superou a Suíça nos pênaltis. O detalhe é que os suíços foram eliminadas da Copa sem sofrer nenhum gol. Perderam na decisão dos pênaltis por 3x0. No ultimo jogo das oitavas de finais a França derrotou a Espanha por 3x1.
As quartas de finais seriam contra os franceses, algozes da seleção brasileira na final da Copa do Mundo de 1998. Com Gilberto Silva no lugar de Emerson lesionado, Parreira escalou Juninho Pernambucano no lugar de Adriano.
1x0 para a França, com Zidane distribuindo todo o seu talento e fazendo uma das melhores atuações da sua carreira. Deu balãozinho em Ronaldo, passes maravilhosos e ainda foi dele a assistência para Henry marcar o gol da vitória, no segundo tempo. A seleção brasileira chegou muito pouco ao ataque, sem perigo para o goleiro Barthez.
Aquela seleção brasileira, com tantos talentos, não soube mostrar em campo o futebol que tinha. No Mundial, não convenceu. Teve um fim melancólico, sem oferecer nenhuma resistência.
Ainda nas quartas de finais, a Alemanha eliminou a Argentina nos pênaltis, depois de ter empatado por 1x1 nos 90 minutos e na prorrogação, a Itália fez 3x0 sobre a Ucrânia e Portugal derrotou a Inglaterra também nos pênaltis, depois de empatar por 0x0 durante os 90 minutos e na prorrogação.
Nas semifinais, a Itália superou a Alemanha por 2x0 na prorrogação e a França ganhou de Portugal por 1x0 em partida polêmica. Na decisão do 3° lugar, os donos da casa superaram os portugueses por 3x1. Mesmo sem ser brilhante, a seleção portuguesa fez uma boa Copa, o mesmo ocorrendo com a jovem seleção alemã.
A final foi entre Itália x França. A Itália que manteve a regularidade em toda a Copa, enfrentaria a França que começou mal o Mundial mas cresceu a partir das oitavas de finais. Nos 90 minutos, o placar foi 1x1, gols de Materazzi e Zidane. Na prorrogação persistia o 0x0. Zidane, eleito o melhor jogador da Copa, seguido dos italianos Cannavaro e Pirlo, deu uma cabeçada em Materazzi e foi expulso. Logo ele, que fez uma Copa tão boa, melhor até do que a de 98, quando a França foi campeã mundial.
Nos pênaltis a Itália ganhou por 5x3 e conquistou o tetracampeonato mundial. Foi merecido. Mesmo sem ser brilhante, a Itália foi superior às outras.
Portugal
Foi a Copa em que conheci a força da torcida de Portugal. Um amigo do meu pai me convidou para assistir a alguns jogos da seleção portuguesa em um hotel na Avenida Atlântida. Esse hotel parecia a base da torcida portuguesa no Rio de Janeiro. Os portugueses amam a sua seleção, cantam o hino inteiro e vibram do início ao fim das partidas, assim como os brasileiros. Nas quartas de finais contra a Inglaterra, vi alguns passando mal na decisão por pênaltis.
Destaques individuais
Pela campeã Itália, além do zagueiro Cannavaro e do meio campista Pirlo, o goleiro Buffon e o meia Totti foram os destaques. Thuram, Vieira e Henry foram os melhores da França junto com o craque Zidane; o goleiro Lehman, o lateral Philipp Lahn, o meio campista Podolski e o atacante Klose foram os destaques da Alemanha e Ricardo Carvalho, Maniche e Figo foram os melhores de Portugal. Shevchenko da Ucrânia, John Terry e Beckham da Inglaterra e Ayala e Crespo foram os melhores da Argentina.
Pela Seleção Brasileira, o destaque foi o meio campista Zé Roberto, que esteve muito bem e fez parte da lista de melhores jogadores da competição. O goleiro Dida e os zagueiros Lúcio e Juan também foram bem.
Um detalhe: a Copa de 2006 foi a primeira Copa dos craques Cristiano Ronaldo e Lionel Messi que, assim como o goleiro mexicano Guilherme Ochoa podem chegar a sua 6° Copa do Mundo consecutiva nos Estados Unidos, Canadá e no México.
Foi uma boa Copa, com ótimos jogadores e alguns bons jogos.
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