As Copas que eu vi- México 1986
Copa do México
A Copa de Maradona
Em 1986, a Copa do Mundo foi disputada no México, mesma sede da Copa do Tri em 1970.
Era para ser na Colômbia, mas o país sul americano não tinha condições de organizar uma Copa do Mundo e desistiu em 1983.
Agora com 13 anos, eu continuava apaixonado por futebol e principalmente pelo Zico, que tinha passado dois anos atuando na Itália, mas tinha voltado para o Flamengo no ano anterior.
Eu e minha irmã Sofia tínhamos comprado bandeiras, camisas e tudo referente a Copa que estava próxima.
Além disso, ela tinha me dado um almanaque sobre a Copa do Mundo, feito pela Disney. Era muito bem feito e contava a história das Copas, das seleções, quem eram as favoritas ao título e explicava quais eram os mais tradicionais times brasileiros. Aquele livro inocente para crianças, me ajudou muito nos meus conhecimentos sobre futebol.
Preparação
Diferente de 1982, a Copa de 1986 teve uma preparação complicada. A seleção brasileira foi treinada por Carlos Alberto Parreira, Edu Coimbra e Evaristo de Macedo até 1985. Faltando dias para o início das Eliminatórias para a Copa do Mundo do México, onde a seleção brasileira iria enfrentar a Bolívia e o Paraguai, a seleção canarinho vivia péssima fase.
Então Evaristo de Macedo foi demitido e a solução foi chamar de volta Telê Santana, o mesmo treinador da seleção brasileira na Copa da Espanha. O time conseguiu a classificação para a Copa, mas o treinador voltou para o seu time no mundo árabe.
No sorteio dos grupos em dezembro de 1985, 23 dos 24 treinadores das seleções classificadas para a Copa estavam no México. Faltava um, justamente o da seleção brasileira, que ainda não estava definido.
A escolha por Telê Santana foi feita somente em 1986, depois das eleições da CBF.
Em fevereiro, começava a preparação. Telê chamou cerca de 30 jogadores.
Nos primeiros amistosos na Europa, a Seleção Brasileira perdeu para a Hungria e a Alemanha Ocidental.
A seleção não ia bem. Os principais destaques da Copa anterior estavam envelhecidos e Zico, que seria a estrela daquele time, sofreu uma lesão séria em 1985 e precisou passar por duas cirurgias. O Galinho de Quintino fez um grande esforço para participar daquele mundial e até pensou em desistir, tendo sido dissuadido pelo treinador.
E Telê ainda teve alguns problemas de indisciplina. Leandro e Renato Gaúcho chegaram atrasados na concentração e pularam o muro, tendo sido encontrados pelos seguranças. Os jogadores correram o risco de ser cortados, mas foram perdoados.
Éder e Sidney não tiveram a mesma sorte e acabaram cortados.
Na convocação final, Telê cortou Renato Gaúcho, que vivia ótima fase pelo Grêmio e manteve Leandro.
Em solidariedade ao colega, Leandro acabou desistindo de disputar a Copa no dia do embarque para o México. Júnior e Zico foram até a casa do lateral, companheiro deles no Flamengo, para tentar convencer o jogador a viajar, mas Leandro não aceitou.
O treinador levou 24 jogadores para o México, mas precisou cortar dois dias antes da estreia. Muitos acharam que Zico seria cortado, mas os cortes foram de Toninho Cerezo e Dirceu.
E assim a seleção estreou na Copa do México.
A Copa
A estreia da seleção brasileira foi contra a Espanha. Jogo difícil, vitória da seleção brasileira por 1x0, gol de Sócrates.
No segundo jogo contra a Argélia, outra vitória pelo placar mínimo e jogando mal, com Careca marcando o gol da vitória.
No terceiro jogo contra a Irlanda do Norte, finalmente uma boa atuação da seleção brasileira. Vitória de 3x0, com dois gols de Careca e um golaço do Josimar, que estreava na Copa no lugar do lateral direito Edson, que tinha se machucado contra a Argélia.
Aquela partida ainda contou com a estreia de Zico, que estava no banco de reservas, entrou no segundo tempo e deu um passe de calcanhar para Careca marcar o terceiro gol.
Primeira fase
A primeira fase teve algumas goleadas e destaques como a Seleção da antiga União Soviética, que goleou a Hungria por 6x0 na estreia e terminou em primeiro lugar no Grupo C, a frente da França.
Outra goleada foi da surpreendente Dinamarca, que fez 6x1 sobre o Uruguai e terminou em primeiro lugar no Grupo E, a frente da Alemanha Ocidental.
Os africanos do Marrocos foram a maior surpresa da primeira fase, terminando em primeiro lugar no Grupo F, a frente das favoritas Inglaterra, Polônia e Portugal.
Brasil e Dinamarca foram as únicas seleções a terminar a primeira fase com 100% de aproveitamento.
Os dezesseis classificados para as oitavas de final foram:
No Grupo A, a Argentina ficou na liderança, com a Itália, atual campeã mundial em segundl e a Bulgária em terceiro.
O B teve México em primeiro, Paraguai em segundo e a Bélgica em terceiro.
No C, União Soviética e França garantiram vaga nas oitavas de final; No D, Brasil e Espanha foram as classificadas.
No Grupo E, a Dinamarca, apelidada de Dinamáquina terminou em primeiro com Alemanha Ocidental e Uruguai em segundo e terceiro e no F, Marrocos, Inglaterra e Polônia ficaram com as vagas.
Oitavas de final
Chegavam as oitavas de finais. O adversário era a temida Polônia, terceira colocada na Copa da Espanha e que contava com o craque Bonieck. Outra goleada, desta vez por 4x0, com gols de Sócrates, outro lindo gol de Josimar, Edinho e Careca completando a goleada de pênalti sofrido por Zico, que novamente entrou no segundo tempo.
Nas outras partidas, a Bélgica derrotou a Bulgária por 2x0, a Bélgica surpreendeu a União Soviética ao vencer por 4x3 na prorrogação, a Argentina derrotou o Uruguai por 1x0 em uma verdadeira guerra.
Além disso, a França fez 2x0 sobre a Itália, que não era nem sombra da campeã mundial de quatro anos antes, a Alemanha Ocidental eliminou Marricos ao derrotar os africanos por 1x0, a Inglaterra fez 3x0 sobre o Paraguai e a Espanha gokeou a Dinanarca por 5x1, com quatro gols de Butragueno, acabando com o encanto da Dinamáquina.
Quartas de final
Nas quartas de finais e, aquela altura o meu otimismo já tinha atingido o nível máximo.
O adversário era a França. Com dez minutos de jogo, linda tabela entre Muller e Júnior e gol do Careca. Era o 5° gol do atacante brasileiro na Copa. Platini empatou no final do primeiro tempo. Na segunda etapa, o empate continuava. Jogo equilibrado. Zico entrou com cerca de 20 minutos, no lugar de Muller.
No primeiro toque na bola, o Galinho fez um lançamento sensacional que deixou o lateral esquerdo Branco na frente do goleiro Bats, que derrubou o brasileiro dentro da área. Pênalti claro, que Zico ia bater.
Gol certo? Não, naquele dia Zico bateu mal, nas mãos do goleiro. Estava frio e vindo de lesão, não deveria ter batido. Mas não fugiu a responsabilidade, como ídolo e líder que sempre foi.
Não imaginam o meu sofrimento. Esperava ansiosamente por aquele momento de glória do meu ídolo. A partida terminou empatada, 0x0 na prorrogação e eliminação brasileira nos pênaltis, com Sócrates e Júlio César perdendo para o Brasil e o craque Platini perdendo para a França.
Fiquei desolado. O Zico foi crucificado e considerado culpado pela eliminação da seleção brasileira era demais para o coração daquele menino. Chorei muito, rasguei as bandeiras, camisa,cornetas.as cornetas...
Mas a seleção brasileira não foi de todo ruim. O lateral direito Josimar, o zagueiro Júlio César e o atacante Careca foram os destaques. O goleiro Carlos, o lateral esquerdo Branco e os volantes Alemão e Elzo também fizeram uma boa competição, além do atacante Muller, que entrava no lugar de Casagrande e melhorava o time até virar titular e Zico, que ajudou mesmo longe de estar 100%.
Telê Santana foi o primeiro técnico a dirigir a seleção brasileira em uma segunda Copa, depois de ter perdido a primeira. Após Telê, chegou a vez de Tite na Rússia em 2028 e no Catar em 2022.
E foi bem. Depois de ter formado um time maravilhoso no ataque, mas com algumas falhas defensivas na Copa da Espanha, no México, com um tempo menor para preoarar o time e muito mais problemas, formou um time equilibrado e eficiente. Marcou 10 gols e sofreu somente um. Careca marcou 5 gols, Sócrates e Josimar fizeram um cada um e Edinho, capitão da Seleção Brasileira no México, um.
Uma pena Zico não estar no auge para ajudar mais e a teimosia de Telê Santana em deixar o Renato Gaúcho, um dos destaques do Grêmio e da Seleção Brasileira, fora da Copa.
Nas outras partidas, a Alemanha Ocidental eliminou o México nos pênaltis após empate por 0x0 no tempo normal e na prorrogação, a Argentina derrotou a Inglaterra por 2x1, com destaque para o genial Maradona e a Bélgica mandou a Espanha para casa ao empatar por 1x1 no tempo normal e na prorrogação e vencer por 5x4 nos pênaltis.
Nas semifinais, a Alemanha Ocidental venceu a França e a Argentina eliminou a Bélgica
Na final, a Argentina venceu a Alemanha Ocidental por 3x2 para conquistar o bicampeonato mundial.
Aquela Copa me mostrou alguns craques brilhantes: Mathaus da Alemanha Ocidental, Platini da França, os goleiros Pfaff da Bélgica e Dassayev da antiga União Soviética, o atacante inglês Gary Lineker, artilheiro da Copa com 6 gols, os atacantes Hugo Sanchez do México e Butragueno da Espanha, os dinamarqueses Elkjaer e Michael Laudrup e o maior de todos: Diego Armando Maradona, que foi o grande craque daquela Copa e fez um dos gols mais bonitos da história das Copas do Mundo, o segundo gol contra a Inglaterra. No primeiro, ludibriou os juízes e parte do mundo, que não viram o soco que ele deu na bola antes dela chegar ao goleiro Shilton.
Foi fator decisivo para o bicampeonato da Argentina no México.
Aquela foi uma das Copas de melhor nível técnico que assisti. Grandes craques e ótimas partidas.
Ali comecei a aprender que tanto no esporte, como na vida, não vivemos só de vitórias e até o Zico, meu ídolo maior, que era infalível aos olhos daquele menino, era passível de erros.
O sacrifício de Zico e a genialidade de Maradona
Comentários
Postar um comentário