As Copas que eu vi- Itália 1990
Chegou o dia de falar sobre a Copa da Itália de 1990.
Já com 17 anos, eu tinha alguma esperança no título, muito mais pelo talento dos atacantes Bebeto, Careca e Romário do que pela qualidade do nosso escrete. A brilhante geração de Falcão, Sócrates e Zico tinha chegado ao fim e Aldair, Ricardo Gomes e Dunga não me passavam a mesma confiança.
Aquela Copa me mostrou algo que mais tarde fui entender: tinha deslocado a rótula do joelho e tinha dificuldades de assistir aos jogos na rua. Anos depois descobri que em Copas do Mundo, prefiro torcer sozinho, ou em grupos pequenos. Foco e torcida total na partida. Nada de churrascos e ambientes com muita gente, me tiram o foco e o que eu gosto é de torcer pela seleção brasileira e exercer a minha pachequice. Gosto de sofrer junto com os jogadores.
PREPARAÇÃO
Após a Copa do México em 1986, a CBF escolheu o treinador Carlos Alberto Silva, que tinha sido campeão brasileiro pelo Guarani em 1978 e vinha de bons trabalhos no São Paulo, Atlético Mineiro e Cruzeiro.
A ótima geração de Falcão, Sócrates e Zico tinha chegado ao fim, Edinho, Júnior e Toninho Cerezo continuavam jogando mas já sem o mesmo brilho. A seleção brasileira passou por uma grande reformulação. Alguns jovens da Copa anterior como Mauro Galvão, Branco, Alemão, Valdo, Silas, Muller e Careca continuaram e se juntaram a Taffarel, Jorginho, Aldair, os Ricardos Gomes e Rocha, Dunga, Geovanni, Bebeto, Romário entre outros...
Depois de ter feito uma boa excursão a Europa em 1987, veio o primeiro revés: a goleada de 4x0 para o Chile e eliminação da Copa América na primeira fase. Mas a CBF confiou no treinador. Depois de ter ganho o Pan Americano de 1987 em Indianapolis, Carlos Alberto Silva seguiu conseguindo alguns bons resultados até as Olimpíadas de Seul.
A seleção brasileira fez uma ótima Olimpíada, conseguindo a medalha de prata, a mesma das Olimpíadas de Los Angeles quatro anos antes. Nas semifinais contra a Alemanha Ocidental (só seria unificada em 1989), Taffarel defendeu três pênaltis e começava a se firmar como titular do gol da seleção brasileira, posição que só deixaria após a Copa do Mundo de 1998. Na final acabaram perdendo por 2x1 para a ex União Soviética (que seria extinta em 1991).
O destaque daquela seleção era o atacante Romário, que seria um dos destaques da campanha do tetracampeonato, 6 anos depois. Revelado no Vasco da Gama, tinha sido vendido para o PSV Eidhoven da Holanda. Além dele brilhavam o já citado goleiro Taffarel, os laterais Jorginho e Leonardo, o meio campista Geovanni e o atacante Bebeto.
Apesar dos resultados, Carlos Alberto Silva não continuou a frente da seleção. No seu lugar foi escolhido Sebastião Lazaroni que tinha sido tri campeão carioca por Flamengo e Vasco da Gama.
Lazaroni chegou com ideias novas: a seleção brasileira, que atuava no esquema 4-4-2 há mais de dez anos, jogava agora com 3 zagueiros, com libero e um forte esquema defensivo, fugindo das características do futebol brasileiro.
O trabalho de Lazaroni não começou bem. Derrotas para a Alemanha e Dinamarca e começo complicado na Copa América, disputada no Brasil.
Depois de 40 anos, a seleção brasileira tentava vencer novamente a competição continental. Ganhou da Venezuela na estreia por 3x1 e empatou com Colômbia e Peru em Salvador, jogando muito mal. Muitas vaias do torcedor baiano. A falta de apoio tinha um motivo além do fraco futebol: os baianos queriam a convocação do atacante Charles, campeão brasileiro pelo Bahia no começo daquele ano de 1989. Lazaroni não aceitou e a seleção pagou o preço
Na última partida da primeira fase, vitória de 2x0 sobre o Paraguai em Pernambuco e começava a boa fase. No quadrangular final, vitórias de 2x0 sobre a Argentina, 3x0 sobre o Paraguai e 1x0 e o título sobre o Uruguai no Maracanã. Interessante é que a decisão contra os uruguaios foi no dia 16/07/1989, exatamente 39 anos depois do Maracanazzo (derrota por 2x1 para a seleção uruguaia no Maracanã, na final da Copa de 1950, considerada a pior derrota da história da seleção brasileira).
Chegava o momento das Eliminatórias para a Copa da Itália do ano seguinte: duas goleadas sobre a fraca seleção da Venezuela e um empate com o Chile em Santiago, deixavam a seleção brasileira a um empate da classificação para a 14° Copa do Mundo. A partida estava 1x0, gol de Careca, quando a farsa chilena começou: após uma torcedora, Rosenery, que virou celebridade após o episódio, jogar um sinalizador no campo, o goleiro Rojas do Chile, se cortou com um estilete que tinha escondido na luva, para simular um ferimento por causa do sinalizador: o golpe foi descoberto, o Chile eliminado de competições internacionais até 1994 e Rojas banido do futebol.
Classificada para a Copa da Itália, a seleção brasileira derrotou as boas seleções da Itália e da Holanda fora de casa (a Holanda que tinha sido campeã da Eurocopa de 1988 e que tinha os craques Koeman, Rijkaard, Gullit e Van Basten como principais estrelas).
Tudo ia bem: no sorteio dos grupos para a Copa, ficou definido que o Brasil enfrentaria Suécia, Costa Rica e Escócia. Não era um grupo difícil.
Até que chegou o ano da Copa: no início do ano, Romário sofreu uma lesão séria e virava dúvida para a Copa. O ponta esquerda João Paulo, que atuava no Bari da Itália e poderia substituir o baixinho, também se lesionava.
No campo político, o início do governo do Presidente Collor, marcava a chegada do Plano Collor, que consistia em confiscar o dinheiro das cadernetas de poupança de parte dos brasileiros e os preços voltavam ao valor de 12/03 (o plano foi anunciado dia 16/03/1990). Essas medidas, que tinham o objetivo de diminuir a inflação, não foram bem aceitas pela população e a retenção do dinheiro das poupanças foi chamada de confisco.
E nesse ambiente político e econômico complicado, começava a Copa da Itália. O entusiasmo e otimismo da população brasileira tinha diminuído por causa da recessão econômica e, no comando da seleção brasileira tínhamos um treinador que falava um idioma diferente, o Lazarones e com um esquema de jogo totalmente fora das características do futebol brasileiro.
Já na Itália, os jogadores ainda brigaram com a Comissão Técnica e os patrocinadores por causa da premiação. Para completar, Romário, convocado mesmo ainda sem 100% de condições de jogo, levou o seu fisioterapeuta particular Nilton Petrone para a Itália, o que causou ainda mais confusão. A 10 dias da estreia contra a Suécia, a Seleção Brasileira perdia para um time amador, o Combinado da Umbria. As coisas não iam bem para a seleção brasileira.
A Copa
Na primeira fase da Copa da Itália, a seleção conseguiu 3 vitórias: 2x1 na estreia contra a Suécia, 1x0 sobre a Costa Rica e 1x0 na última partida contra a Escócia. Vitórias difíceis, com um futebol feio, mas o time se classificava em 1° e iria enfrentar a Argentina, atual campeã, que tinha feito uma primeira fase ruim e tinha terminado em 3° no seu grupo.
A seleção brasileira perdeu muitas chances e foi muito superior aos hermanos. Mas eles tinham Maradona. Mesmo não sendo nem sombra do craque decisivo de 86, Dieguito fez uma linda jogada, passando por três jogadores brasileiros e deixando o atacante Caniggia na frente de Taffarel. O argentino driblou o goleiro e tocou para o gol vazio. 1x0 e a seleção brasileira estava eliminada daquele mundial.
Nas semifinais da Copa, a Argentina enfrentou a Itália em Nápoles. Maradona era o craque do Nápoli, mas parte da Itália é extremamente nacionalista. Situação paradoxal: vitória da Argentina nos pênaltis, depois de empate em 1x1 nos 90 minutos e na prorrogação.
A Alemanha acabou campeã, com a Argentina em segundo, a anfitriã Itália em terceiro e a Inglaterra em quarto. Foi um mundial sem tantos craques como o do México, que teve Mathaus, da campeã Alenanha, como principal nome. Outros bons nomes foram um Maradona mesmo em decadência e o goleiro Goycoechea, que ajudaram a Argentina a chegar até a final, o italiano Schillachi, artilheiro daquela Copa, o inglês Gary Lineker e Roger Milla, destaque da seleção camaronesa, surpresa daquela Copa. Após ter derrotado a Argentina por 1x0 na abertura do Mundial, os africanos fizeram uma ótima campanha, sendo eliminados nas quartas de finais ao perder para a Inglaterra por 3x2.
Mesmo sem ser brilhante, a seleção brasileira tinha Taffarel, Jorginho, Ricardo Rocha, Branco, Dunga e Muller que seriam campeões do mundo 4 anos depois, nos Estados Unidos, no time titular, além de Mazinho, Aldair, Bebeto e Romário que eram reservas. Era uma boa base. Na final contra a Itália em 94, a seleção brasileira jogou com Taffarel, Jorginho, Aldair, Márcio Santos e Branco; Mauro Silva, Dunga, Mazinho e Zinho; Bebeto e Romário. 8 dos 11 titulares estavam na Copa da Itália.
A Copa da Itália é considerada uma das de pior nível técnico da história. O melhor mesmo foi o futebol da campeã Alemanha e a surpreendente seleção de Camarões.
Imagem globoesporte.com
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