As Copas que eu vi- Estados Unidos 1994
Chegou o dia de escrever sobre a Copa de 1994, a Copa do tetracampeonato mundial da seleção brasileira.
Já com 21 anos, eu tinha muita esperança no título mundial. Muito mais do que na Copa de 90. Essa confiança se devia principalmente a dois atacantes incríveis: Bebeto e Romário.
Continuava com problemas no joelho. Novamente desloquei a rótula do joelho, desta vez na comemoração de uma vitória da seleção brasileira.
Preparação
Após o fraco desempenho da Seleção Brasileira na Copa de 1990, a CBF resolveu mudar tudo. A Copa de 1990 e o mau futebol da seleção brasileira ficaram, injustamente, conhecidos como a Era Dunga. Mas o personagem principal daqueles tempos obscuros, daria a volta por cima na Copa dos Estados Unidos.
O escolhido para assumir o comando da seleção brasileira foi o ex jogador Falcão. Ídolo do Internacional e da Roma, o Rei de Roma nunca tinha sido treinador. A ideia era fazer uma reformulação total na seleção e isso ficou a cargo do ex jogador.
O capitão e principal nome daquela seleção era Neto, camisa 10 do Corinthians e campeão brasileiro em 90. Depois de Falcão, Neto nunca mais foi convocado.
Outros nomes que apareceram na seleção eram Cafu e Leonardo, além de alguns oriundos do mundial anterior como Taffarel, Jorginho, Ricardo Gomes e Rocha, Aldair, Branco, Dunga, Muller, Bebeto e Romário.
Falcão não teve bons resultados e foi demitido depois da Copa América de 1991, mesmo tendo sido vice campeão. A campeã foi a Argentina, que tinha um bom time com jogadores como Fernando Redondo, Simeone, Diego Latorre e Batistuta.
O sucessor de Falcão foi Carlos Alberto Parreira e o coordenador técnico Zagallo.
Depois de um bom início em 1992, conseguindo bons resultados, os problemas começaram em dezembro daquele ano. A seleção brasileira iria enfrentar a Alemanha em Porto Alegre. Bebeto, Careca e Romário foram convocados para a partida.
Na véspera da partida, Parreira distribuiu os coletes para os titulares e deixou Romário na reserva. Após um treino, o baixinho deu uma entrevista dizendo que tinha vindo da Holanda para jogar. Isso causou um mal estar e Romário passou um tempo sem ser convocado.
Chegava o ano de 1993, com compromissos importantes como a Copa América no Equador e as Eliminatórias para a Copa do Mundo dos Estados Unidos no ano seguinte.
Na Copa América, eliminação precoce para a Argentina, atual campeã e que ganharia o bi naquele ano. Depois da conquista, os hermanos ficariam sem ganhar uma competição até 2021, quando venceriam a seleção brasileira na final da Copa América no Maracanã.
Eliminatórias
As Eliminatórias naquele ano merecem um capítulo a parte. Tinham um formato diferente. Ao invés de grupos com 3 seleções, o Brasil enfrentaria Equador, Bolívia, Venezuela e Uruguai. No outro grupo, Argentina, Paraguai, Peru e Colômbia brigavam por uma vaga.
A seleção brasileira tinha a vantagem de jogar os 4 primeiros confrontos fora de casa e decidir a vaga com 4 jogos no Brasil. E isso seria decisivo para a classificação. A campanha começou com um empate em 0x0 contra o Equador, e uma derrota por 2x0 para a Bolívia (a primeira derrota da seleção brasileira na história das Eliminatórias). Crise na seleção brasileira, com direito a frango de Taffarel, doping de Zetti e despedida de Careca da seleção.
Depois uma goleada sobre a fraca Venezuela e um empate contra o Uruguai.
Nos jogos de volta, vitórias sobre o Equador, uma goleada de 6x0 sobre a Bolívia e outra sobre a Venezuela.
A última partida era contra o Uruguai. A seleção brasileira jogava por um empate no Maracanã, como na final da Copa de 1950. Alguns atacantes estavam machucados e Romário, que estava muito bem no Barcelona, foi chamado para o jogo contra os uruguaios. Seria ele o Salvador da Pátria?
Contra o Uruguai ele foi. O Baixinho chegou, viu e venceu. Venceu não, acabou com o jogo: fez de tudo na vitória sobre o Uruguai. Muitos dizem que foi a grande atuação dele na seleção brasileira e eu acredito que tenha sido. Toda a seleção brasileira jogou muito bem e a vitória por 2x0 com dois gols de Romário, o segundo um golaço, classificou a seleção brasileira para a Copa.
Classificada e já com um time base, no sorteio da fase de grupos da Copa em dezembro de 93, ficou definido que a seleção canarinho enfrentaria Rússia, Camarões e Suécia na primeira fase do mundial.
Havia um clima de otimismo no futebol brasileiro: o São Paulo era o atual bi campeão da Libertadores e do Mundial Interclubes, com jogadores selecionáveis como Zetti, Cafu, Leonardo, Muller e Palhinha e o Palmeiras foi campeão paulista e brasileiro de 1993 jogando um bom futebol com jogadores como Antônio Carlos, Roberto Carlos, César Sampaio, Mazinho, Edmundo e Evair.
1994
Chegava o ano da Copa do Mundo. Base formada e adversários conhecidos, a geração era boa, com vários jogadores experientes, mas os 24 anos sem título mundial pesavam negativamente. A pressão sobre o treinador Carlos Alberto Parreira e os jogadores era grande.
Na economia, o Plano Real, a mais ampla medida econômica já realizada no Brasil, que tinha como objetivo principal o controle da hiperinflação, que chegou a mais de 46,58% em junho daquele ano. Utilizou-se de diversos instrumentos econômicos e políticos para a redução da inflação, a elaboração das medidas do governo e a execução das reformas econômica e monetária contaram com a contribuição de vários economistas, reunidos pelo então Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, que em outubro daquele ano seria eleito Presidente da República.
Em plena Copa do Mundo, a partir do dia 02/07, começava a corrida aos bancos para trocar o dinheiro antigo pelo novo Real, que começava a circular.
Havia uma ponta de otimismo da população brasileira com essa mudança, apesar da alta inflação e o cenário político e a tragédia de 1 de maio.
Naquele domingo, feriado do Dia do Trabalho, foi disputado o GP de Imola de F1. O tri campeão mundial Ayrton Senna, recém chegado a equipe Williams, tinha tido problemas e abandonado as duas primeiras provas da temporada. Senna fez a pole em Imola, em um final de semana muito complicado. Na sexta-feira o brasileiro Rubens Barrichello sofreu um grave acidente e no sábado o austríaco Roland Ratzemberg faleceu após um acidente no treino classificatório. No domingo, os pilotos, liderados por Senna, estavam decididos a não correr, como uma forma de protesto por mais segurança na F1. Acabaram sendo dissuadidos da ideia pelos dirigentes da FIA, entidade que comanda o automobilismo no mundo todo.
Senna largou na frente e liderava a prova, quando saiu reto na curva tamburello e bateu de frente. Horas depois descobrimos com consternação que o acidente tinha sido fatal. O Brasil perdia o seu maior ídolo no esporte, alguém que tinha orgulho de levar a bandeira brasileira ao lugar mais alto do pódio.
Muita tristeza em todo o país. O velório do piloto dias depois reuniu milhões de pessoas em São Paulo, cidade natal.
Era nesse ambiente que a seleção canarinho ia disputar a XV Copa do Mundo nos Estados Unidos.
Copa do Mundo:
Ao chegar ao país da Copa, a seleção jogou dois amistosos, com um empate contra o Canadá em 1x1 e uma goleada por 4x0 sobre El Salvador. Contra os salvadorenhos acabou perdendo um dos seus líderes: o zagueiro Ricardo Gomes, um dos líderes do time se contundiu e acabou cortado. No seu lugar, Parreira chamou Ronaldão e o reserva Márcio Santos assumiu a posição de Ricardo no time titular.
Brasil 2x0 Rússia
Estreia com uma boa vitória sobre a Rússia, no dia 20/06. Gols de Romário e Rai de pênalti, um em cada tempo. Desde a Copa do México em 1970, a seleção brasileira não estreava em uma Copa com uma vitória por mais de um gol de diferença.
Brasil 3x0 Camarões
Quatro dias depois era o dia de enfrentar a seleção de Camarões, sensação da Copa da Itália 4 anos antes. Os africanos estavam bem abaixo do que mostraram na Itália e foram derrotados por 3x0, gols de Romário no primeiro tempo e Márcio Santos e Bebeto no segundo.
Brasil 1x1 Suécia
O último jogo da primeira fase foi contra a boa seleção sueca no dia 29/06. Empate em 1x1, gols de Kenneth Anderson no primeiro tempo e Romário empatando no início da etapa final. As duas seleções estavam classificadas para as oitavas de finais, com a seleção brasileira em 1° e a Suécia em 2°.
Maradona
Dieguito e a seleção da Argentina merecem um capítulo a parte naquela Copa dos Estados Unidos. Depois de vencer, e bem, as duas primeiras partidas contra a Grécia por 4x0 e a Nigéria por 2x1, Maradona foi suspenso por doping (fez uso de Efedrina, substância para emagrecer). Muitos dizem até hoje que foi retaliação da FIFA contra um dos seus maiores oponentes. A verdade é que a Argentina tinha uma boa seleção com Fernando Redondo, Simeone, Batistuta e poderia ter ido mais longe com Maradona. Sem ele, perdeu para a Bulgária por 2x0 e foi eliminada pela boa seleção da Romênia por 3x2 nas oitavas de finais.
Brasil 1x0 Estados Unidos
No dia 04/07, Dia da Independência dos Estados Unidos, a seleção brasileira tinha os anfitriões da Copa pela frente nas oitavas de finais. Estádio cheio, os americanos ganharam gosto pelo Soccer e com o sentimento nacionalista aflorado, naquele feriado nacional. Acreditavam que a seleção americana poderia superar o Brasil. Durante a partida, a torcida gritava U-S-A, U-S-A, no melhor estilo latino de torcer.
Era a primeira partida em que Mazinho começava como titular do meio campo, no lugar de Rai. O Brasil criou muitas chances na primeira etapa, mas o goleiro Meola teve boa atuação. No fim do primeiro tempo, Leonardo foi expulso por dar uma cotovelada em Tab Ramos. O jogo ia ficando perigoso.
No segundo tempo, o panorama não mudou. Chances perdidas da seleção brasileira contra uma seleção norte americana que se defendia muito bem. A partida ia ficando dramática, quando por volta dos 30 minutos, Romário fez uma jogada individual maravilhosa e toca para Bebeto marcar. 1x0 e a seleção canarinho estava classificada para as quartas de finais da Copa do Mundo dos Estados Unidos.
No fim daquela partida, Zagallo lembrava: "Só faltam três".
Brasil 3x2 Holanda
Dia 09/07 o desafio era contra a Holanda. Considerado o jogo mais difícil da Copa até ali, aquela partida era cercada de expectativa.
Havia uma preocupação na seleção brasileira: com a expulsão de Leonardo, o seu substituto, o veterano Branco, iria estrear na Copa, depois de ter se recuperado de uma lesão. A questão é que Branco teria pela frente o veloz ponta direita Overmars, que tinha feito uma ótima partida contra a Irlanda nas oitavas de finais. Branco tirou de letra o desafio.
O primeiro tempo terminou 0x0. Jogo muito equilibrado. No segundo tempo, dois gols de Romário e Bebeto, o segundo gol ficou famoso pela comemoração de Bebeto fingindo embalar uma criança, em homenagem ao seu filho que tinha acabado de nascer. Pouco depois, Bergkamp e Aaron Winter empataram para a Holanda. Partida dificílima, os brasileiros pareciam mais desgastados. Aos 35 minutos, Branco, cavou uma falta. O próprio jogador, famoso pelo seu chute potente, foi para a cobrança. Bateu com perfeição e contou com Romário que tirou o corpo da frente da bola, que tinha endereço certo. Golaço, Brasil 3x2. O gol coroava a boa atuação do lateral, que estreava na sua 3° Copa do Mundo. Na comemoração, uma demonstração do quanto aquele grupo era unido. O lateral esquerdo foi direto abraçar o Doutor Lidio Toledo, médico responsável pela sua recuperação. Não era só ao entrar em campo de mãos dadas que aquele grupo mostrava estar junto: jogadores e comissão técnica tinham um único propósito: o TETRA. E o gesto de Branco demonstrou isso.
Mais uma vez, o Velho Lobo seguia a sua contagem: "Só faltam dois".
Brasil 1x0 Suécia
Na semifinal dia 13/07, novamente a Suécia. Outra partida complicada. A seleção brasileira mantinha a mesma formação e perdeu muitas chances no primeiro tempo. E o goleiro sueco, Ravelli, ia provocando os brasileiros a cada chance desperdiçada. No segundo tempo, as chances continuavam aparecendo e nada do 0x0 sair do placar. E o jogo ia ficando perigoso... Aos 35 minutos, o lateral direito Jorginho cruzou com perfeição na cabeça do baixinho, que no meio da defesa sueca bem mais alta do que ele, subiu para marcar o gol. Brasil 1x0 e a vaga na final da Copa do Mundo depois de 24 anos.
Brasil 0x0 Itália (Brasil 3x2 Itália nos pênaltis)
Final da Copa do Mundo de 1994: quem vencesse ia ser o primeiro tetra campeão mundial.
Jogo nervoso. Poucas chances, perdidas pelas duas seleções. Os 90 minutos terminaram 0x0, mesmo resultado da prorrogação, onde a seleção brasileira foi melhor. A XV Copa do Mundo seria decidida nos pênaltis. Baresi e Márcio Santos perderam as primeiras cobranças. Depois as duas seleções acertaram as duas cobranças seguintes: no penúltimo pênalti da Itália Taffarel defende a cobrança de Massaro. Dunga marca e se Roberto Baggio perdesse a última penalidade, o Brasil era tetra campeão mundial. E foi o que aconteceu: Baggio isolou a bola. Ironicamente, o mesmo placar da eliminação da Copa da Espanha 12 anos antes.
A seleção brasileira era campeã do mundo e Dunga, tão criticado 4 anos antes e símbolo do mau futebol, levantava a taça como capitão. Na comemoração, os jogadores exibiram uma faixa, "Senna o Tetra é nosso!", fazendo alusão ao tri campeão mundial de F1 que faleceu em um acidente dois meses antes. O Tetra finalmente chegava, 24 anos depois do Tri.
Apesar de muito criticada, a seleção brasileira não era ruim. O problema era o meio campo. Com a má fase de Rai, faltava criatividade no setor. Parreira optou por não levar Palhinha e Rivaldo para a Copa, que poderiam ser boas opções na criação de jogadas.
Apesar do meio campo deixar a desejar ofensivamente, a defesa foi muito bem, passando muita segurança e o ataque brilhante com os geniais Bebeto e Romário.
Taffarel, Aldair, Dunga e Bebeto fizeram uma Copa impecável. Mauro Silva foi muito bem no trabalho de proteção aos zagueiros e na cobertura dos laterais que podiam avançar com tranquilidade. Laterais que, por sinal, fizeram uma ótima Copa. Jorginho, Leonardo (depois Branco) e até Cafu quando acionado, foram muito bem. O zagueiro Márcio Santos também foi muito regular, tanto que fez parte da seleção da Copa e Mazinho e Zinho foram competentes na proteção da defesa, mesmo sem conseguir criar tanto no ataque. E o que dizer de Romário, eleito o craque daquela Copa? O Baixinho marcou 5 gols, deu um passe açucarado para o gol de Bebeto contra os Estados Unidos, além de outros lances geniais.
Além dos brasileiros, outros destaques do Mundial dos Estados Unidos foram os italianos Maldini e Baggio, os suecos Brolin e Kenneth Anderson e os búlgaros Balakov e Stoichkov, que era companheiro de Romário no Barcelona e foi o artilheiro da Copa junto com o russo Salenko, com 6 gols cada um. Além deles, o craque da Romênia George Hagi, também fez uma ótima Copa, assim como a sua seleção, que chegou às quartas de finais.
Foi um bom mundial, disputada com estádios cheios, vários craques e algumas seleções que apresentaram um bom futebol. Na minha opinião, o título da seleção brasileira foi justo.
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