Copa do Mundo da Suécia 1958
Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez? Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece e algumas delas ficam marcadas para sempre.
E o primeiro título de uma Copa do Mundo depois do fracasso do vice campeonato de 1950, quando a seleção brasileira tinha uma grande equipe, favorita ao título e que ainda jogava por um empate no Maracanã contra o Uruguai, diante de 200 mil torcedores?
Inesquecível, ainda mais aqui no Brasil, um povo tão apaixonado por futebol.
1950 foi uma grande decepção e a seleção brasileira precisava se redimir desse fracasso.
Por isso nas três próximas semanas vou contar um pouco da história e da campanha dos três primeiros títulos mundiais da seleção brasileira, que deram ao Brasil a posse definitiva da Taça Jules Rimet e transformaram o nosso país na maior potência da história do futebol. O Brasil só é considerado o país do futebol graças a esses três títulos.
Não vi essas Copas, nasci em 1973, mas tenho pesquisado bastante a respeito.
Complexo de vira-latas
O brasileiro não confiava em si mesmo, escrevia sempre o cronista, dramaturgo, escritor Nelson Rodrigues na década de 50. No livro "À Sombra das Chuteiras Imortais", que reunia crônicas de Nelson entre as Copas de 1958 a 1970, li a respeito desse complexo de vira-latas.
E isso se refletia no futebol. Segundo Nelson, o brasileiro tinha muito talento para jogar futebol e isso se refletia na qualidade de seus jogadores: Djalma e Nilton Santos, Didi, Garrincha, Pelé Julinho, Pepe, entre tantos outros eram excelentes jogadores, mas precisavam confiar no seu futebol.
Na Copa da Suíça em 1954, a equipe era muito boa e não era tão inferior a Hungria, adversário das quartas de finais. Os brasileiros tremeram frente aos húngaros e acabaram eliminados com uma derrota por 4x2. Um dos poucos que não teve medo dos húngaros foi o ponta direita Julinho Botelho.
E a Copa de 1958 era o momento para acabar com esse complexo de inferioridade.
Comissão Técnica
Depois de problemas disputas entre cariocas e paulistas nas duas primeiras Copas, uma boa Copa com todos os jogadores em 1938, excesso de confiança e derrota na final de 1950 jogando em casa e a tremedeira na Suíça em 1954, a CBD (atual CBF), não queria cometer os mesmos erros na Copa da Suécia em 1958. Tinha ótimos jogadores e precisava de organização.
Tudo foi planejado com perfeição. Paulo Machado de Carvalho foi escolhido o chefe da delegação e montou uma comissão técnica com os melhores profissionais.
Uma das novidades foi um psicólogo para cuidar do emocional dos jogadores, o que talvez tivesse faltado na Copa da Suíça 4 anos antes. O escolhido foi João Carvalhaes.
O trabalho com um psicólogo era algo inédito na história do futebol. Os grandes clubes da Europa só entenderiam a importância do papel do psicólogo na comissão técnica 3 décadas mais tarde.
Alguns métodos do Dr. Carvalhaes eram questionáveis. Considerou Pelé, na época com 17 anos, infantil demais para disputar uma Copa e Garrincha, irresponsável. Ainda bem que o treinador não lhe deu ouvidos.
Apesar das polêmicas, o trabalho foi considerado bom. Os jogadores confiavam mais no seu potencial e não achavam que já eram campeões mundiais, erro cometido nas duas Copas anteriores.
O treinador Vicente Feola
Segundo o site ogol.com.br, o temperamento apaziguador e bonachão do treinador fez bem a seleção brasileira.
Pesando mais de 150 quilos, era um gordinho bem humorado e a fama de cochilar durante os jogos, fazia sentido. Feola tinha problemas renais e tomava vários remédios que lhe davam muito sono.
Mas isso não tira o mérito do treinador Ele tinha ótimo gosto para jogadores e escolheu os melhores atletas para disputar a Copa na Suécia.
Além disso, teve coragem para escalar Zito, Garrincha, Pelé e Vavá no momento certo e de não permitir influências externas dentro de campo. Por isso entrou para a história do futebol brasileiro.
Foi um dos pioneiros do esquema 4-3-3. Zagallo, era um ponta esquerda recuado e ajudava o meio campo quando a seleção brasileira estava sem a bola. Isso facilitava o lateral esquerdo Nilton Santos, que avançava ao ataque com frequência.
Convocação
Feola levou os seguintes jogadores para a Copa do Mundo da Suécia: Goleiros Castilho e Gilmar; Laterais direitos De Sordi e Djalma Santos; Laterais esquerdos: Nilton Santos e Oreco; Zagueiros: Bellini, Mauro, Orlando Peçanha e Zózimo; Meio campistas: Didi, Dino Sani, Moacir e Zito; Atacantes: Dida, Garrincha, Joel, Mazzola, Pelé, Pepe, Vavá e Zagallo. Alguns bons jogadores acabaram ficando de fora como os veteranos Barbosa e Zizinho, além de Canhoteiro, Pagão, Almir e Dorval. Como era raro os jogadores atuarem em clubes estrangeiros, eles não eram convocados. Esse foi o motivo para Evaristo de Macedo e Julinho Botelho ficarem de fora. Interessante que os dois jogavam justamente nas posições de Garrincha e Pelé.
Copa do Mundo
A seleção brasileira estava em um grupo difícil na primeira fase da Copa da Suécia. 3 das melhores seleções europeias seriam os adversários: a Áustria, semifinalista da Copa do Mundo anterior, a Inglaterra, que inventou o futebol e sempre tem uma seleção competitiva e a União Soviética, uma das melhores seleções do mundo e que seria campeã da primeira Eurocopa, disputada dois anos depois. A União Soviética (atual Rússia), tinha o que chamavam de futebol científico.
Para a estreia contra a Áustria, Feola escalou Gilmar, De Sordi, Bellini, Orlando Peçanha e Nilton Santos; Dino Santos e Didi; Joel, Dida, Mazzola e Zagallo.
Os 3x0 sobre a Áustria (2 gols de Mazzola e um de Nilton Santos), foi o único jogo do ponta de lança Dida em Copas do Mundo. O atacante alagoano, que é o 2° maior artilheiro da história do Flamengo e ídolo de Zico, o maior jogador da história do Flamengo.
O gol de Nilton Santos causou espanto nos torcedores. Foi uma das primeiras vezes em que se via um lateral subir ao ataque. Depois de Nilton Santos, os laterais se transformaram em alas e iam sempre ao ataque, como nos casos de Carlos Alberto Torres, Nelinho, Leandro, Júnior, Jorginho, Branco e Roberto Carlos, só para citar alguns dos melhores laterais da história do futebol brasileiro.
Na segunda partida contra a Inglaterra, já com Vavá no lugar de Dida, empate em 0x0 e desempenho ruim. Após essa partida, os críticos começaram a pedir a presença de Garrincha e Pelé no time.
Garrincha e Pelé entraram nos lugares de Joel e Mazzola. Outro que entrou foi Zito, meio campista do Santos, no lugar de Dino Sani do São Paulo.
O adversário na 3° partida era a seleção da União Soviética, um time muito perigoso e que tinha como destaque o goleiro Yashin.
Em 5 minutos de partida, o estreante Garrincha já deu o seu recado. Chutou uma bola na trave e deu um passe para Vavá marcar o primeiro gol. Já Pelé levou perigo aos russos durante toda a partida. No segundo tempo, Vavá marcou o segundo gol.
A seleção brasileira estava classificada para as quartas de finais. Terminou em 1° lugar, com os soviéticos em 2°.
O adversário das quartas de finais seria o País de Gales.
Mais uma vez a seleção não repetiria a escalação. Desta vez Vavá machucado ficou de fora e Mazzola entrou em seu lugar.
Partida muito difícil com os galeses totalmente na retranca e o goleiro Jack Kelsey tendo grande atuação.
Até que aos 28 minutos do segundo tempo, Mazzola levantou de bicicleta para Didi que escorou de cabeça para Pelé. O camisa 10, que se tornaria o Rei do Futebol, dominou a bola de costas na grande área, tocou com o pé direito para tirar o zagueiro Charles, deixou a bola quicar e finalizou com o pé direito, sem chances para o arqueiro Kelsey. Aquele foi o 1° dos 12 gols de Pelé em Copas do Mundo e, o garoto de 17 anos, começou a mostrar ali nos gramados suecos, porque seria considerado o Atleta do Século XX.
Era a vaga para as semifinais. Enfrentaria a temida seleção da França, dos atacantes Raymond Kopa e Just Fontaine.
Novamente uma alteração na equipe: Mazzola deu lugar a Vavá. Logo aos dois minutos, o próprio Vavá fez 1x0 para a seleção canarinho. Pouco depois, o atacante Just Fontaine, artilheiro daquela Copa com 13 gols, empatou. Antes do fim do primeiro tempo, Didi desempatou para o Brasil. Um lindo chute de fora da área. O único gol que o melhor jogador da Copa marcou na competição.
O segundo tempo, foi do jovem Pelé. Três gols e uma grande atuação. No fim da partida, Piantoni ainda diminuiu para a seleção francesa, mas a partida terminou 5x2 para a seleção brasileira, que carimbava a vaga na final.
A decisão seria contra a Suécia, que derrotou a Alemanha Ocidental (atual campeã mundial) por 3x1 na outra semifinal.
A seleção chegava a final contra a anfitriã do Mundial sem o seu lateral direito titular, De Sordi, que se lesionou no jogo contra a França. No seu lugar entrou Djalma Santos, que jogaria a sua única partida na Copa. Djalma foi tão bem, que foi eleito o melhor lateral da competição, mesmo atuando apenas na última partida.
Na final, o campo estava pesado, devido a fortes chuvas em Estocolmo. Essa era uma preocupação, já que a seleção brasileira jogava um futebol muito mais técnico do que os escandinavos e o estado do gramado poderia atrapalhar.
As duas seleções jogavam com uniformes parecidos e na véspera da final foi feito um sorteio e ficou definido que a seleção brasileira jogaria com o seu uniforme B, com a camisa azul e não com a camisa amarela tradicional (até 1950, o uniforme era branco, mas depois do Maracanazzo, a camisa amarela foi escolhida como novo uniforme. A cor branca tinha dado azar em 1950, diziam).
Jogar de azul era outra preocupação. Todos preferiam a amarelinha, como Zagallo se refere até hoje a camisa da seleção. Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação, era devoto de Nossa Senhora Aparecida e disse que azul era a cor do manto da Nossa Senhora, padroeira do Brasil e que ela daria sorte ao Brasil.
Logo no início da partida, Liedholm fez 1x0 para a Suécia. A seleção brasileira parecia nervosa e Didi pegou a bola calmamente e foi conversando com os jogadores, lembrou que meses antes o Botafogo tinha goleado aquela mesma equipe. A equipe se tranquilizou. Pouco depois Vavá empatou e fez 2x1 ainda no primeiro tempo.
No segundo tempo, Pelé marcou um golaço: dominou, deu um lençol em um defensor sueco e fez 3x1, o seu 5° gol em Copas do Mundo. Pouco depois, Zagallo fez 4x1. Simonsson ainda diminuiu para a Suécia e Pelé marcou de cabeça no último lance da partida.
A seleção brasileira ganhava o seu primeiro título mundial. Ganhou e deu um show. Fez 16 gols e sofreu somente 4, 2 na semifinal e 2 na final.
Bellini foi o capitão da seleção brasileira. Zagueiro clássico, que atuava pelo Vasco da Gama, teve a honra de ser o primeiro capitão da seleção brasileira que venceu uma Copa do Mundo. Uma curiosidade: até aquela Copa, nunca nenhum capitão tinha erguido a taça acima da cabeça. Bellini recebeu a taça Jules Rimet e como tinha muita gente na frente, os fotógrafos gritaram para Bellini para levantar a taça. Foi quando o capitão a ergueu. Depois daquela competição, todos os capitães repetiram o gesto do zagueiro brasileiro. O gesto ficou eternizado e virou até estátua e ponto de encontro no Maracanã. Os torcedores marcam de se encontrar em frente ao Bellini.
Pelé foi o artilheiro da Seleção Brasileira com 6 gols em 4 jogos e Vavá veio em seguida com 5. Mazzola fez 2 na estreia contra a Áustria e Nilton Santos, Didi e Zagallo marcaram 1 gol cada um.
Didi foi o melhor jogador e o francês Just Fontaine foi o artilheiro com impressionantes 13 gols, recorde de gols marcados em uma única Copa do Mundo. Pelé e Helmut Rahn foram os vice artilheiros com 6 gols. Pelé foi eleito o melhor jogador jovem da competição.
A seleção brasileira teve 6 jogadores escolhidos para a seleção da Copa: os laterais Djalma e Nilton Santos, Bellini, Didi, Garrincha e Pelé.
Foi a Copa que marcou o começo da dupla Garrincha e Pelé na seleção. Os dois nunca perderam jogando juntos: jogaram juntos 40 vezes, com 36 vitórias e 4 empates. A estreia da dupla tinha sido cerca de um mês antes da Copa, com uma vitória por 3x1 sobre a Bulgária.
Assisti os jogos da semifinal contra a França e da final contra a Suécia conpletos pelo YouTube e digo: que futebol maravilhoso. Bem mais técnico e menos físico do que o atual, mas muito mais bonito. Fiquei encantado com um jogador em especial: o zagueiro Orlando Peçanha. Sempre preciso e perfeito nos desarmes. Os geniais Djalma e Nilton Santos, Didi, Garrincha e Pelé, eu já conhecia. Mas Orlando me surpreendeu.
A conquista foi muito merecida. A seleção brasileira foi superior as outras, jogando um lindo futebol e "ganhou a taça do mundo, sambando com a bola no pé", fazendo uma alusão a canção A Taça do Mundo é Nossa de autoria de Wagner Maugeri, Lauro Muller, Maugeri Sobrinho e Victor Dago composta em comemoração ao título conquistado na Suécia.
Fontes de pesquisa:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Copa_do_Mundo_FIFA_de_1958
https://ge.globo.com/rj/serra-lagos-norte/blogs/blog-do-gustavo-garcia/noticia/ha-60-anos-pele-e-garrincha-jogavam-juntos-pela-primeira-vez-em-uma-copa.ghtm
https://www.ogol.com.br/text.php?id=11622
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-60974466
Muito legal essa história mestre das palavras. Obrigado por copartilhar!!
ResponderExcluirQue bom que gostou meu amigo. Feliz em agregar.
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