As Copas que eu vi- França 1998

Chegava a Copa de 1998 na França.

Primeira Copa com 32 seleções. Oito grupos com 4 seleções cada um. A seleção  brasileira chegava como favorita, até por ser a atual campeão mundial. E a geração realmente era muito boa: Taffarel, Cafu, Aldair, Dunga e Ronaldo formavam a base daquele time.

Eu, já com 25 anos, estava na faculdade de jornalismo, fazendo muitos amigos e, principalmente, vivendo o ambiente universitário. Descobria que escrever e contar boas histórias era realmente a minha vocação.


Preparação 

Depois de ter vencido o Tetra, a CBF escolheu Zagallo para ser o treinador. O time já tinha uma base e a ideia era dar continuidade ao trabalho.

Além de preparar a seleção canarinho para a Copa, Zagallo tinha outra missão: conquistar a inédita medalha de ouro olímpica, nas Olimpíadas de 1996 em Atlanta, nos Estados Unidos.

Tínhamos uma ótima geração com Dida, Zé Maria, Roberto Carlos, Zé Roberto, Flávio Conceição, Zé Elias, Juninho Paulista, Amoroso, Sávio e Ronaldo Fenômeno, que já brilhava no PSV Eidhoven e no Barcelona.

A Copa de 98 foi a penúltima em que o campeão não precisaria disputar as Eliminatórias, o que deu tranquilidade para a Comissão Técnica trabalhar e programar amistosos da seleção principal e da olímpica.

Em 1995, Zagallo começou a montar a base da seleção principal com alguns jogadores experientes como Taffarel, Cafu, Aldair e Dunga. O time foi bem, derrotando a Inglaterra fora de casa e sendo vice campeão da Copa América.

Continuavam os preparativos para as Olimpíadas. Após alguns amistosos, o time parecia estar pronto para buscar o inédito ouro olímpico.

Era um ótimo time: como tinha a chance de convocar 3 jogadores acima dos 23 anos, Zagallo escolheu convocar Aldair, Rivaldo e Bebeto. O time titular era Dida, Zé Maria, Aldair, Ronaldo e Roberto Carlos; Flávio Conceição, Amaral, Juninho Paulista e Rivaldo; Bebeto e Ronaldo Fenômeno. Desses, 6 estariam na Copa da França, dois anos depois, 5 como titulares (Aldair, Roberto Carlos, Rivaldo, Bebeto e Ronaldo Fenômeno). O goleiro Dida foi como 3° goleiro e Flávio Conceição e Juninho Paulista só não foram porque se lesionaram às vésperas da Copa. Juninho Paulista inclusive era o camisa 10, o número 1 do meio campo de Zagallo e  titular absoluto durante boa parte da preparação para a Copa.

Na estreia das Olimpíadas, derrota para o Japão por 1x0. Em seguida, a seleção brasileira conseguiu 3 vitórias consecutivas e ia disputar as semifinais contra a Nigéria. O Brasil estava vencendo por 3x1 até os 30 minutos da etapa final, mas sofreu o empate. Na prorrogação, o ainda jovem Kanu, marcou o Golden Gol que eliminou a seleção brasileira e adiou o sonho do ouro olímpico mais uma vez. Na disputa pelo bronze, goleada de 5x0 sobre a seleção de Portugal. Um prêmio de consolação para aquele ótimo time.

Depois da desilusão em Atlanta, mais alguns amistosos e o ano de 1997 chegava cheio de desafios: amistosos, Torneio da França, Copa América na Bolívia e Copa das Confederações na Arábia Saudita.

O último amistoso antes do Torneio da França,  foi contra a Noruega. Derrota de 4x2 fora de casa. Os Vikings se tornariam uma pedra no sapato da seleção brasileira.

No Torneio da França, a seleção brasileira foi vice campeã do torneio com dois empates contra a anfitriã França por 1x1 e a Itália por 3x3. Na última partida derrotaram a Inglaterra, que venceu a Itália e a França e acabaria campeã do torneio. A competição foi um ótimo teste para a Copa do ano seguinte.

Logo em seguida, a Copa América na Bolívia. A seleção brasileira passou por Costa Rica, México e Colômbia com três vitórias na primeira fase. Nas quartas de finais derrotou o Paraguai por 2x0 e goleou o Peru por 7x0 nas semifinais.

A final era contra a dona da casa. Além da seleção boliviana que tinha alguns bons jogadores como o goleiro Trucco, os meio campistas Etcheverry e Erwin Sanchez e Baldivieso, que formavam a base da seleção boliviana que classificou a Bolívia para a Copa dos Estados Unidos em 1994, tinha de enfrentar a inflamada torcida boliviana e a altitude: de Santa Cruz de La Sierra, a seleção brasileira teve de subir de Santa Cruz de La Sierra para La Paz, uma diferença de mais de 3 mil metros.

Foi um jogo difícil. Edmundo marcou o primeiro gol, mas Erwin Sanchez empatou em falha de Taffarel. No segundo tempo, Ronaldo e Zé Roberto deram a seleção brasileira o primeiro título da competição fora de casa.

Após a conquista, Zagallo soltou a célebre frase: "Vocês vão ter que me engolir"!

No sorteio da fase de grupos da Copa da França  em dezembro, ficou definido que a seleção brasileira, atual campeã, faria o jogo de abertura da Copa contra a Escócia no dia 10 de junho, jogaria contra Marrocos no dia 16 e a perigosa seleção da Noruega dia 23 de junho 

Ainda em dezembro, era a vez da Copa das Confederações na Arábia Saudita. Classificou-se em primeiro com duas vitórias sobre Arábia Saudita e México e um empate contra a Austrália. Nas semifinais, vitória de 2x0 sobre a República Tcheca. 

A final seria novamente contra a Austrália. Desta vez o resultado foi bem diferente do empate de 0x0 na primeira fase: Brasil 6x0 sobre os Socceros, como também é conhecida a seleção australiana, com três gols de Ronaldo e três de Romário. O Velho Lobo parecia ter encontrado a dupla de atacantes ideal: Ronaldo e Romário pareciam se completar, assim como Bebeto e Romário em 1994.


1998

Chegava o ano da Copa.

Diferente das últimas Copas, o ambiente político e econômico estava mais tranquilo no Brasil. Com o Plano Real, a economia se estabilizou e o Real continuava equivalente ao dólar, o que dava a população um certo otimismo. A situação estava tão tranquila que, no fim daquele ano, o Presidente Fernando Henrique Cardoso seria reeleito para um segundo mandato.

No futebol, em fevereiro a seleção brasileira teve a Copa Ouro, contra as seleções da CONCACAF nos Estados Unidos. O Brasil não foi bem: Dois empates contra a Jamaica por 0x0 e Guatemala por 1x1 e uma goleada sobre El Salvador por 4x0 classificaram a seleção para as semifinais da competição, quando perderam por 1x0 para os Estados Unidos. Na disputa pelo 3° lugar, novamente a Jamaica: desta vez vitória de 1x0 da seleção brasileira. O futebol feio e muitas chances de gol perdidas não agradaram a CBF.

Após a chegada ao Brasil, Zico foi escolhido para ser o coordenador técnico da seleção, a contragosto de Zagallo.

Já com Zico como coordenador, vitória de 2x1 sobre a Alemanha fora de casa. Mesmo com algumas falhas individuais e de posicionamento, a vitória veio.

Em abril, o confronto era contra a Argentina no Maracanã. Zagallo deu uma chance a Rai, que estava saindo do PSG e retornando ao São Paulo. A atuação foi muito ruim. Rai foi muito mal e acabou a partida sob vaias e gritos "Rai, pede para sair", da torcida e o time não foi bem e acabou perdendo por 1x0, gol de Cláudio Lopes no fim da partida. A última impressão da seleção brasileira no Brasil antes da Copa foi bem ruim.

Na época, diferente de agora, a seleção brasileira teve a chance de enfrentar as melhores seleções do mundo. Enfrentou  Alemanha, campeã da Eurocopa, Itália, vice campeã mundial quatro anos antes, França, anfitriã do Mundial, Inglaterra e Argentina, entre outras seleções de alto nível.


Convocação 

Na convocação final para a Copa, Zagallo acabou deixando Juninho Paulista e Djalminha de fora. Juninho seria titular absoluto, o número 1 de Zagallo, mas acabou sofrendo uma lesão séria. Em seu lugar, o escolhido foi Giovanni do Barcelona. Djalminha não agradava a Zagallo e não era convocado com frequência, mesmo sendo o destaque do La Coruna da Espanha.


Romário 

Na véspera da viagem para a França, Romário se contundiu em uma partida pelo Campeonato Carioca. A lesão não parecia grave, mas ao chegar a França, não conseguia treinar com o restante do elenco porque ainda estava sentindo dores. Pressionado por Zico, o médico Lídio Toledo não conseguia fazer uma previsão de quando o atacante estaria em condições de jogo. E Zagallo era cauteloso ao falar no assunto.

Com essa indefinição, Romário acabou cortado. No dia do anúncio, o Dr. Lídio, Zico e Zagallo não tinham muitas explicações para dar e Romário, muito emocionado, disse estar muito triste com o corte, mas não era o seu adeus da seleção. O baixinho ainda disputou algumas partidas, mas foi novamente preterido na Copa de 2002, desta vez por Felipão.


Copa do Mundo 

No dia 10/06, a seleção brasileira fez a abertura da Copa do Mundo contra a Escócia. Jogo nervoso, a seleção brasileira conseguiu uma vitória difícil por 2x1. César Sampaio marcou o primeiro gol da Copa, aos 4 minutos, Collins empatou de pênalti aos 37 do primeiro tempo e Boyd, contra, depois de dividida com Cafu, fez o gol da vitória da seleção brasileira.


Brasil 3x0 Marrocos e Dunga x Bebeto.

Na semana seguinte, dia 16/06, o jogo era contra a seleção africana de Marrocos. A vitória de 3x0 dá a sensação de ter sido um jogo fácil, mas não foi. Ronaldo fez o primeiro (o primeiro dos 15 gols que o Fenômeno marcaria em Copas do Mundo) no início da partida, Rivaldo marcou o segundo no fim do primeiro tempo e Bebeto completou o placar na etapa final.

No primeiro tempo, quando o jogo ainda estava 1x0 para o Brasil, uma falta na entrada da área da seleção brasileira gerou uma discussão ríspida entre Dunga e Bebeto. O capitão reclamou que o atacante não ajudou e Bebeto retrucou. Tiveram de ser contidos pelos companheiros. Dunga e Bebeto jogavam juntos na seleção há 15 anos, desde que a seleção brasileira foi campeã mundial de juniores pela primeira vez em 1983.

O episódio parece ter mexido com Bebeto que não vinha bem na partida e voltou para o segundo tempo querendo mostrar o seu futebol. Marcou o 3° gol e fez uma ótima segunda etapa, até ser substituído por Denilson.


Brasil 1x2 Noruega

Já classificada e com a 1° colocação do grupo garantida, a seleção brasileira jogou a última partida da primeira fase contra a Noruega. Poupando alguns jogadores, a seleção brasileira não teve facilidades contra os Vikings. Bebeto marcou para o Brasil, mas Tore André Flo empatou depois de falha de Júnior Baiano e Rekdal virou para os noruegueses de pênalti, classificando a Noruega para as oitavas de finais, quando seria eliminada pela Itália. O desespero dos narroquinos, que derrotaram a Escócia por 3x0 e só precisavam que a Noruega não vencesse a seleção brasileira para se classificarem para as oitavas, foi um dos momentos mais emocionantes daquela Copa.


Oitavas e quartas de finais

No dia 27/06, o desafio era contra o Chile pelas oitavas de finais. Vitória fácil do Brasil por 4x1, 2 gols de César Sampaio e 2 de Ronaldo. Marcelo Salas marcou para os chilenos.

Pelas quartas de finais, o jogo foi contra a Dinamarca, dia 03/07. Jogo complicado, vitória difícil por 3x2.

Jorgenssen marcou logo no início da partida para os dinamarqueses, mas Bebeto e Rivaldo viraram ainda no primeiro tempo. Na etapa final, Brian Laudrup empatou depois de falha de Roberto Carlos, que foi tentar tirar uma bola de bicicleta, furou e a bola sobrou limpa para Laudrup. Rivaldo decidiu a partida com um gol de fora da área. A seleção brasileira estava nas semifinais da 2° Copa consecutiva.


Brasil 1x1 Holanda 

Quatro dias depois, no dia 07/07, era o dia da semifinal contra a Holanda. A seleção brasileira tinha um desfalque importante: o lateral direito Cafu. No seu lugar, jogaria o desconhecido Zé Carlos. O lateral direito do São Paulo, uma das surpresas da convocação de Zagallo, não foi bem na única chance que teve.

O primeiro tempo do jogo foi equilibrado. Algumas chances para as duas seleções, mas a 1° etapa terminou 0x0.

Logo no primeiro minuto da segunda etapa, Ronaldo Fenômeno fez 1x0 para a Seleção Brasileira. Todo o segundo tempo foi eletrizante, com várias chances dos dois lados. O jogo ia terminando e a seleção brasileira ia garantindo a vaga na segunda final consecutiva. No fim da partida, Kluivert empatou. A semifinal ia para a prorrogação.

A prorrogação foi sensacional. Várias chances para as duas seleções, mas o tempo extra terminou 0x0 e a definição da vaga ia para os pênaltis.

Outra imagem marcante daquele mundial foi antes das penalidades: os jogadores estavam exaustos e Zagallo levantou o ânimo de todos, incentivando-os para as cobranças. Nos pênaltis, Taffarel defendeu dois pênaltis e a seleção brasileira eliminou a Holanda por 4x2 e iria decidir o mundial contra a seleção francesa, anfitriã daquele mundial.


França 3x0 Brasil 

Tudo pronto para a grande final. As duas melhores seleções da Copa iriam fazer a final. A boa seleção da Croácia, com o artilheiro da competição, Suker, com 6 gols, foi a grande surpresa daquela Copa. Depois de perder para a Argentina e vencer Japão e Jamaica na primeira fase, derrotou a Romênia nas oitavas de finais e eliminou a Alemanha ao vencer os ainda tri campeões mundiais por 3x0 nas quartas de finais. Nas semifinais perderam de virada por 2x1 para os anfitriões franceses, com dois gols de Thuram e ganharam a 3° posição ao derrotar a boa seleção da Holanda por 2x1.

Chegava o dia da final. Jogo sem favoritos. Após o almoço da delegação brasileira, o susto: Ronaldo, o melhor jogador do mundo, passa mal e vai parar no hospital. Parecia que a estrela maior daquela Copa não ia jogar na final.

Horas antes da partida, Zagallo decide o substituto de Ronaldo: seria Edmundo. Na preleção, Zagallo contou que em 1962, a seleção brasileira também perdeu o seu grande craque, Pelé e Amarildo, seu substituto, jogou muito bem e Edmundo também teria uma grande atuação. Estava tudo certo para a final e todos jogariam por Ronaldo.

Já no vestiário, Ronaldo chega do hospital, querendo jogar. Situação difícil, como deixar de fora o melhor jogador do mundo? Zagallo decidiu voltar atrás e Ronaldo foi escalado.

No primeiro tempo, a seleção brasileira parecia nervosa com o incidente com Ronaldo. A seleção francesa aproveitou-se bem disso e Zidane, o craque da seleção anfitriã, marcou 2 gols. No Intervalo, França 2x0 Brasil.

No segundo tempo, o panorama parecia o mesmo. Mesmo com a expulsão do zagueiro Desailly, a seleção brasileira não conseguia reagir. Edmundo entrou muito mal na partida. Nos acréscimos da partida, o volante Petit marcou o terceiro para definir o 1° título mundial da França.


Destaques

Foi uma com competição com bons jogadores e alguns ótimos jogos. Pela seleção brasileira, Taffarel, Cafu, Aldair, César Sampaio, Dunga, Rivaldo, Bebeto e Ronaldo foram os destaques. Pela campeã França, Thuram, Blanc, Petit, Djorkaef e Zidane foram os melhores; pela Croácia, o artilheiro Suker foi o melhor. Os holandeses também tinham uma ótima seleçã.o  Van Der Saar, Frank de Boer, Davids, Seedorf, Bergkamp e Kluivert foram os melhores. Os dinamarqueses Peter Schmeichel e Brian Laudrup também foram muito bem, além dos argentinos Cláudio Lopes e Batistuta e do inglês Michael Owen que marcou um golaço contra a Argentina nas oitavas de finais. 

Além deles, o alemão Mathaus disputou a sua quinta Copa e chegou ao 25° jogo em Copas do Mundo.

A seleção brasileira perdia a 2° final de Copa do Mundo da sua história e passaria por uma grande reformulação para a Copa do Japão e da Coreia do Sul quatro anos depois.




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